sexta-feira, 3 de abril de 2020

O esforço


Há muitos anos, num jantar em casa do meu colega Fernando Neves, referi que estava a ler um determinado livro de um romancista cujo nome não é para aqui chamado. Era aquilo a que, sem exagero, se chama um “escritor menor”, daqueles que fizeram algum nome no tempo da ”outra senhora”, incensado pelo SNI e pelos panfletários do regime, mas que o bom-senso crítico, com a passagem dos anos, arquivou já no devido esquecimento.

Tinha e tenho por vício ler autores medíocres, na literatura e no ensaio, nunca concluí se por masoquismo ou se pela vontade de me divertir com os ditos. É uma mania, que se há-de fazer!

Lembro-me bem de que, nesse jantar, ao ouvir falar da minha incursão por essa literatura “de segunda”, o escritor António Mega Ferreira, um dos outros convivas, teve uma reação curiosa: “A literatura desse tipo não merece sequer o esforço de estendermos o braço para a estante, para pegar num livro dele. Quanto mais lê-lo!”

Pensei isto ontem, ao ler um texto de Elmano Alves, incluído numa obra com alguns ensaios e testemunhos, o que era o caso. Quem foi Elmano Alves, perguntará o leitor? Foi um ator secundário e quase ignoto do marcelismo (as novas gerações saberão que houve “marcelismo” antes deste Marcelo?), uma figura da política de Setúbal que, um pouco “by default”, chegou a presidente do partido único da época, a Ação Nacional Popular. Com o êxito que se viu.

Lembro-me da imagem dele, antes de se exilar no Brasil, no pátio do palácio de Belém, nos dias imediatos ao 25 de abril, a dizer uma única frase, ao menos mais corajosa do que a de alguns “vira-casacas” da época: “Estou mudo e não mudo”.

O texto é indigente, de um nacionalismo serôdio, mas, porque tenho estado a ler sobre esses “anos do fim” (a designação é do meu amigo Jaime Nogueira Pinto), fui obrigado a passar os olhos por aquilo que era a doutrina desse período. Uma conclusão tirei, sem equívocos: ler Elmano Alves não mereceu, de facto, o esforço de esticar o braço para a estante.

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