Leio que, devido à crise sanitária, é bem possível que o acesso às praias, este Verão, passe a ficar condicionado, para evitar aglomerações. Já estou a imaginar o que vão ser as filas matinais para inscrições!
Como eu só costumo ir para a praia cerca da quatro da tarde, estou curioso sobre como vai funcionar o esquema para “late risers”. Mas não é nada de que eu não tenha já alguma experiência.
Em 1980, vivendo na Noruega, deu-me para ir passar uma semana de férias em Ialta, no mar Negro. Vivia-se o tempo soviético, em todo o seu esplendor burocrático.
Na receção principal do hotel - escrevo “principal” porque, na URSS desse tempo, os hotéis tinham, além dessa, uma receção em cada andar, onde ficavam guardadas as chaves dos quartos - foi-nos entregue, à chegada, um boletim individual, com o nosso nome, com espaço para dois carimbos, por cada dia de estada: era a “autorização” para ir à praia. Na véspera, informávamos se queríamos ir de manhã ou de tarde e era colocado, no espaço próprio, um carimbo permitindo esse acesso. Achámos bizarríssima a ideia, mas, como logo aprendemos, não era mais do que a que tivéramos ao ter escolhido fazer férias soviéticas...
O nosso hotel era imenso, dando sobre a praia. Acedia-se a esta por um único elevador. À sua entrada, havia uma senhora a quem era necessário mostrar o tal boletim e que cuidadosamente, com cara patibular, verificava se, para o período do dia e data em que se estava, estávamos autorizados a descer até à praia. E que contava cuidadosamente o número de passageiros. Chegado o elevador ao nível da praia, à saida, lá estava outra senhora, a quem tínhamos de mostrar de novo o cartão e que, percebi, repetia a contagem. Já não recordo o procedimento de regresso.
Na primeira noite, ao jantar, inquiri da guia norueguesa que nos acompanhava o que é que aquilo significava: é que, a menos que tivesse “nascido” alguém no curso da descida, as pessoas que saíam do elevador eram exatamente as mesmas que nele tinham entrado, umas dezenas de metros mais acima.
A guia, que passou todas essas férias numa preocupação com os meus constantes protestos e observações, aculturada que já estava àquelas práticas, explicou-me: “É muito simples: a primeira funcionária é a responsável pelo número de passageiros que segue no elevador, e segunda faz o controlo sobre o trabalho da primeira, não vá ter ido gente a mais”. Creio, mas não estou certo, que não se riu ao dizer isto...
Agora que passam 150 anos sobre o nascimento de Lenine, constato que não notei se, no seu túmulo, na Praça Vermelha, em Moscovo, para ver o seu corpo embalsamado, é feita uma contagem dos visitantes à entrada e outra à saída. É que, na realidade, pode dar-se o caso de ficar lá por dentro alguém...
