Ontem, quando vi a fotografia do homem que percorreu sozinho a Avenida da Liberdade, no dia dela, com uma grande bandeira nacional às costas, lembrei-me de uma figura que, durante a ditadura, sempre em solene silêncio, surgia com uma idêntica bandeira nos atos públicos oposicionistas. A primeira vez que recordo tê-lo visto foi no funeral de António Sérgio, nos Prazeres, em janeiro de 1969.
Era um homem alto, magro, de cara seca e fechada. Aquela imensa bandeira, que imagino irritasse a polícia que sempre por ali andava, fardada ou travestida, era, em si mesma, um imenso berro à liberdade. Um dia, vim a saber que o homem se chamava Américo.
Ao que agora apurei, depois do 25 de abril, o Américo passou a surgir nas manifestações do Partido Socialista. Mas eu, no PREC, nunca frequentei as manifestações do PS. Andava por outras paragens...
É pena se não foi dada ao Américo a Ordem da Liberdade e não teve a bandeira nacional a cobrir-lhe o caixão, na hora da morte.
Ainda no dia de ontem, ao ver o filme de Glauber Rocha sobre o 1° de maio de 1974, surgiu-me a imagem do Américo, o homem da bandeira.
