Os traços eram estranhos, algo asiáticos, mas não muito pronunciados. O português, abrasileirado, era razoável na pronúncia, embora com ligeiros erros nas concordâncias. Fizemos apostas sobre a origem da empregada que nos servia, no jantar de ontem. Na altura de pedir as sobremesas, perguntei-lhe. "Usebequistão", foi a resposta, com um sorriso. "É muito longe...", esclareceu. Para ver a reação dela, disse-lhe: "Já estive alguns dias no seu país". Abriu os olhos bem oblíquos, entre o espantada e o descrente. "É verdade! Dormi em Fergana, em Tashkent, em Samarcanda e em Bukara". Parecia não querer acreditar. "O seu país é muito bonito". Era pura verdade. O sorriso ia aumentando. A música ambiente, caribenha, aos berros, naquele restaurante novo e incaraterístico, desenhado para turistas, no local onde a Braamcamp cruza com a Alexandre Herculano, onde o fantástico fim de tarde e o acaso nos tinham feito desaguar, não dava para mais conversa. À saída, a rua estava assim, a cheirar a tílias, a lembrar o Jardim da Carreira, em Vila Real. O edifício da sinagoga tem, ao lado, uma loja com nome árabe. Lisboa é um porto, pelos vistos seguro, para gente muito diversa. A mim, é uma coisa que muito me agrada. Só espero que a eles também.
