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terça-feira, junho 27, 2023

As três vezes


Imaginem um filho único adolescente, oriundo de uma cidade de província (Vila Real), nos anos 60 do século passado, desaguado, para frequentar a universidade, na cidade grande (Porto). Ele ali estava, sem o menor controlo, instalado num lar de estudantes que, no final desse ano (já é azar, ou então foi sorte), viria a ser cautelarmente encerrado, como reação à anarquia e à indisciplina que a reitoria por ali detetara.

Imaginem esse miúdo a ser amavelmente tutorizado pelos mais velhos, numa iniciação à noite do Porto, à descoberta de mundos até então só suspeitados. Numa noite dessas, ele foi com dois ou três à Foz. Bateram à porta do "Xeque-Mate", recentemente aberto. Atendeu um cavalheiro, com ar grave. O fulano olhou o grupo e, com a insondável arrogância dos guardas de caverna, alegando um pretexto qualquer, impediu-lhes a entrada. Não havia recurso. Humilhados, eles lá regressaram à base, ao famigerado Lar na Torrinha.

Esse miúdo, eu, deixou, entretanto, de viver no Porto, concluída que tinha sido uma experiência académica de dois anos que deve ter ficado registada como um "benchmark" negativo dificilmente batível (duas cadeiras concluídas, num total de dois anos de "estudo"). 

Para sempre, levei comigo um "azar" ao "Xeque Mate" e jurei a mim mesmo nunca lá entrar. E quase cumpri.

Ontem, acabada a função na CNN, já bem tarde, deu-me para ir jantar (bem, como sempre) ao "Cafeína". Na circunstância, sozinho, como aliás não gosto de jantar. No final, a caminho do hotel, avancei com o carro até ao fim da rua. E lá estava ele, o "Xeque Mate". Ainda existia! Estacionei, toquei à porta, abriu-ma um sósia do Prigozhin. Disse-lhe boa noite e entrei. Um minuto depois, com um "Bushmills" novo, sem gelo, na mão, olhei o DJ a encher o tristonho ambiente de música dos anos 80, com pífias luzes coloridas a flashar numa pista de dança deserta. Todo o pessoal em redor, que não era muito, tinha nascido bem depois da data em que, por ali, me/nos tinham dado com os pés, nesse ano de 1967. 

Acabada a bebida, paguei a uma empregada que tinha um bonito sorriso e saí. Na rua, olhei a frente bem iluminada do bar e disse para comigo: já posso dizer a um velho amigo da Foz que fui três vezes ao "Xeque Mate": a primeira, a única e a última.


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