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sábado, junho 10, 2023

"Hoje jogo eu"


Há muitos, mesmo muitos, anos, costumava ler "A Bola", com regularidade e interesse. Hoje sou, em absoluto, incapaz de abrir qualquer jornal desportivo, nem sequer para fazer horas num café: não me desperta o menor interesse. E já tentei, confesso. 

"A Bola" tratava, essencialmente, como o nome e o símbolo indicavam, de futebol. Com duas exceções: no Verão, falava de ciclismo, noutras escassas ocasiões, de hóquei em patins. O resto das atividades desportivas eram, quando eram, objeto de notas brevíssimas, por parte do então "trissemanário da Travessa da Queimada".

"A Bola" era, ao que recordo, muito bem escrita. Conseguia dessa forma resistir ao desprezo com que uma certa camada de jornalistas trata o jornalismo desportivo, graças à qualidade dos seus profissionais. Sem ir ao Google, lembro: Carlos Miranda, Aurélio Márcio, Vitor Santos, Mário Zambujal, Carlos Pinhão. 

Um dos momentos áureos de "A Bola" eram as aventuras europeias do Benfica. O meu Sporting era só às vezes, o Porto de então ficava-se pelas Antas. Quando os "encarnados" (era proibido dizer os "vermelhos", adjetivo que tinha ficado reservado para os perdedores da Guerra Civil de Espanha e para quantos eram o alvo privilegiado da Pide) iam jogar a sítios mais bizarros, em especial aos "países socialistas", com muita arte e alguma manha na escrita, os profissionais do jornal destacados para a reportagem faziam sempre umas curtas notas, em caixa, com apontamentos curiosos, tipo "fait divers", chamando a atenção dos leitores atentos para pormenores desse quotidiano diferente, sempre com cuidado extremo de garantir que tal não era objeto de desagrado dos "coronéis" da censura, aliás geograficamente vizinha da redação do jornal. Intitulavam sempre essa coluna de "Hoje jogo eu".

A que propósito surge esta conversa hoje, "dia da raça", como dita a memória de Cavaco Silva? É que amanhã, na reportagem das comemorações na Régua, sem usar esse título mas também procurando captar um "fait divers" para alindar a prosa, a generalidade dos jornalistas que foram obrigados a prescindir do feriado vai falar (vale uma aposta?) dos assobios a João Galamba, como o facto maior a destacar, ao lado da exegese dos recados do presidente, também a propósito disso. Para tanto lhes dará "o engenho e a arte", como diria o vate que serve de pretexto à data.

Mas poderiam eles falar de outra coisa? Ora essa! Podiam falar dos rebuçados vendidos pelas senhoras de avental à porta da estação ou dos "polícias da Régua" ou da mais pequena barbearia do país (na imagem) ou da vitela do "Castas e Pratos" ou das desventuras da Casa do Douro e da filosofia do "benefício". 

Há tanto para falar da Régua, que já foi Peso da Régua, terra onde eu, na minha juventude, achava que havia a maior concentração de NSUs do mundo e que então enviava, para estudar no liceu de Vila Real, alguns dos olhos mais bonitos que alguma vez por lá passaram.

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