domingo, junho 04, 2023

Juros

Só uma manifesta iliteracia pública justifica que não seja uma evidência que o Estado português, ao financiar-se internamente através dos Certificados de Aforro, deve tentar pagar a mais baixa taxa de juro que seja possível. Como contribuinte, quero pagar, pelos empréstimos ao Estado, o menor serviço de dívida possível - seja no exterior, seja no nosso mercado financeiro interno. Como contribuinte, não quero que os meus impostos sirvam para subsidiar o investimento de quem tem isso poupanças para comprar Certificados de Aforro. Por isso, quero que estes tenham a mais baixa taxa de juro que for possível conseguir-se. Confundir isto com a questão dos juros dos bancos é uma mera demagogia, que só sobrevive no debate público graças à iliteracia financeira que por aí grassa.

10 comentários:

manuel campos disse...


Ora exactamente.

Anónimo disse...

"só sobrevive no debate público graças à iliteracia financeira que por aí grassa."
Pode ser que tenha razão, não sou capaz de apresentar argumentos sólidos para nenhum dos lados. Confesso que sou um dos iletrados.
Mas posso afirmar que já ouvi e li exactamente o contrário a várias pessoas que são economistas conhecidos, alguns doutorados na matéria e provenientes de quadrantes ideológicos diferentes. A acreditar na opinião do Senhor Embaixador tenho de concluir que há iliteracia a mais.
Zeca

A.B. disse...

Eu também não quero que Portugal pague mais pela dívida pública, é uma bomba relógio que vai estourar nos bolsos de filhos e netos. Mas, é uma sorte, a manifesta iliteracia financeira dos meus compatriotas. Não fazem perguntas incómodas, não é?

balio disse...

Tem toda a razão.
Se os certificados de aforro estão com enorme procura, isso só pode significar que eles estão a ser excessivamente bem remunerados face à concorrência, pelo que se justifica descer a taxa de juro que oferecem. É a lei da oferta e da procura...

manuel campos disse...


Um off-topic, sorry.

De João Martins Pereira a terminar o prefácio de “O dito e o feito” (Edições Salamandra, 1989”:

“A questão que coloco é, no essencial, de ideologia. E ideologias, em rigor, não as há piores nem melhores. Há simplesmente a que escolhemos e as que escolheram outros.”

Tenho aí o livro há anos sem ser lido, abro-o hoje e leio isto.
E tendo lido muito dele, tenho agora uma série de dúvidas que não tinha.
Lindo serviço!

manuel campos disse...


Também já ouvi as mais diversas opiniões dos mais diversos quadrantes.

E depois utilizo um truque velho que dá para todo o tipo de situações da vida, como quem não quer a coisa trato de saber se essas pessoas têm "interesses" pessoais na matéria, neste caso particular se têm Certificados de Aforro (e em que quantidade, se possível).

É sempre instrutivo ír mais longe.



Carlos Antunes disse...

Senhor Embaixador, e com todo o respeito, permito-me discordar apenas num ponto, sendo que padeço de alguma iliteracia financeira.
Tanto quanto consegui apurar, o financiamento externo da República (IGCP programa de financiamento PF 2023) é feito a taxas superiores (3,6%-3,7%) aos anteriores 3,5% dos CA (financiamento interno).
Sendo as taxas muito próximas, não é mais razoável que a República se endivide internamente do que no exterior? Porque num caso ou noutro, são os portugueses (com os seus impostos) que pagam a divida da República.
E se o problema que está subjacente à decisão do Governo é o nível de endividamento (obviamente que tem de haver limites), então porque não limitar simplesmente as subscrições (dos 250.000 € para os actuais 50.000 €) mantendo a taxa de juro dos certificados em 3,5%?
Este limite de subscrição dos CA (3 vezes menos) não traria automaticamente um limite ao endividamento da República?

Nuno Figueiredo disse...

tudólogo...

Carlos Antunes disse...

Por lapso disse que o limite de subscrição (50.000 €) era 3 vezes menos que os anteriores 250.000 €.
Consequência da minha iliteracia aritmética – não são 3, mas sim 5 vezes menos!

Anónimo disse...

Senhor embaixador
Já ouvi letrados em finanças a ter sobre o assunto opiniões diametralmente opostas... E aos iletrados sobre coisas do dinheirinho, também...
Boto, aqui, uns palpites elaborados pelo meu palpitómetro.
1. Li algures (ou imagino que li) que a dívida do Japão, muitíssimo elevada, não causa grandes dores de cabeça aos governos deles porque ela é na quase totalidade "interna" (devem ter por lá, há muitos anos, alguma coisa parecida com "certificados de aforro").
2. Declaração de interesses: tive alguns certificados de aforro, há anos, até que os Correios foram desnacionalizados; então, tirei de lá o dinheirinho....
3. Nunca "percebi" por que razão tendo os Correios sido privatizados (e depois criado um banco...) continuaram a ter o monopólio da venda dos certificados de aforro. (Claro que os letrados em finanças devem ter boas razões para que isso fosse assim...) E ainda perguntei, há tempos, se na Caixa Geral de Depósitos, banco do Estado, os vendiam...
4. Diz um outro "comentador" deste "post" que o Estado paga para se endividar no estrangeiro um pouco mais do que os 3,5% que estavam a render os certificados de aforro.
5. Creio não me enganar dizendo que a subscrição de certificados tinha um limite, dirigindo-se, por isso, para pequenas poupanças, mesmo à medidas de gente pouco abonada mas que conseguia fazer pequenas poupanças.
6. Esse ganho feito pelos pequenos "aforrados" por certo ia ser gasto no país na economia real adubando os circuitos económicos do país, injectando glóbulos vermelhos no sangue da economia...
7. Já os juros pagos pelo Estado (a mais do que 3,5%, dizem...) aos grandes bancos e fundos estrangeiros "voa" lá para fora, nada contribuindo para a dinamização da nossa economia.
8. Agora, os juros baixaram e os certificados já podem ser vendidos por todos os bancos...
Confesso, senhor embaixador, que na minha iliteracia não sou capaz de deixar de tirar conclusões sobre estes "negócios" feitos pelos especialistas de finanças. Mas eles devem ter razão. E razões...
MB

Que Praga!

Ainda bem que o jogo acabou. Estava farto de ouvir chamar Chéquia à República Checa.