Um dia, vai para trinta anos, num hotel campestre na Isle of Skye, na Escócia, acordei com um nó na garganta, com dificuldade de engolir. Entrei em pânico e comecei a “empreender”, como se diz na minha terra. Liguei logo para o meu médico, em Londres.
Era um clínico geral, com consultório na, à época na moda, Sloane Street. Fora-me recomendado por alguém da embaixada. Era (então, porque passaram 30 anos) um homem novo, simpático, sempre com um sorriso cordial, com quem estabeleci, desde o primeiro dia, uma fácil empatia, a qual, contudo, não dava direito a descontos. E não era um médico barato, mas o seguro de saúde da Bupa (do que eu ainda me lembro!) cobria boa parte do preço das consultas.
Angustiado, expliquei, o melhor que pude, o que sentia. “O que é que o meu amigo anda a fazer na Escócia?”, perguntou-me o médico. Expliquei que tinha alugado um carro e andava, há uns dias, num circuito, meio turístico, meio gastronómico. Do outro lado da linha, veio uma questão terrível: “Você está convencido que tem qualquer coisa de grave na garganta, é isso?” Confessei que sim, notando, contudo, que a pergunta tinha alguma ironia associada.
“Olhe, Francisco! Ainda me lembro da nossa última conversa, aqui no meu consultório. Falou-me de um restaurante que tinha aberto em Notting Hill. Já lá fui e é bastante bom. E de outro, com cerveja “trappiste”, que tinha descoberto em Camden Town. Ainda não consegui ir. Imagino que, tendo estado em Edimburgo, tenha ido ao Martin. Acertei? E tem também andado a visitar destilarias de whisky, não é? (Era). O que você tem, meu caro, é o produto de um refluxo do estômago. Vá a um Boot’s, peça um anti-ácido qualquer e, em meia dúzia de horas, fica fino. Está na Isle of Skye? Ó homem, não perca a destilaria do Talisker! Se gosta de whiskies com “peat”!”
Também gostava. Fui ao Boot’s, fui à destilaria e fui gozar a Isle of Skye. E, de facto, não era nada.
