terça-feira, 30 de junho de 2020

Requiem para o Aleixo


Há dias, de passagem pelo Porto, recebi a notícia: o Aleixo fechou. O Aleixo, ou melhor, a Casa Aleixo, para quem ande menos atento a estas coisas da restauração, era o nome de um restaurante muito antigo do Porto. 
Começo por transcrever parte de um texto que, faz agora precisamente quatro anos, escrevi na revista “Evasões”, onde, até me cansar da tarefa, mantive, por algum tempo, uma crónica gastronómica. O artigo sobre o Aleixo tinha o título provocador de “O polvo é quem mais ordena”.
No Porto há vários restaurantes clássicos, mas eu arriscaria dizer que, nos dias de hoje, nenhum tem os pergaminhos históricos do Aleixo.
O Aleixo fica em Campanhã, a dezenas de metros da mais movimentada estação ferroviária da cidade. Contudo, nem por isso sofre da banalização que, muitas vezes, afeta os lugares de restauração próximos dos centros de transportes coletivos. Ao longo de toda a sua existência, com altos e baixos, somados a crises e dissídios, a casa tem conseguido sustentar uma qualidade muito apreciável, sendo procurado por uma clientela fiel local e, em especial nos últimos anos, também pelos turistas que enxameiam o Porto. E, claro, por forasteiros como eu, que mapeiam o país das boas vitualhas.
O espaço do Aleixo é típico de um restaurante sem grandes sofisticações, mas com um ambiente acolhedor, quase caseiro. Não fora a pressão de clientes em dias de maior procura e seria tentado a dizer que recorda as saudosas pensões de província, nos tempos imemoriais do “bom e barato”. Estamos um pouco longe disso, isto é, continua bom mas, como não podia deixar de ser, porque a qualidade dos produtos tem de ser paga, já não é um restaurante qualificável como barato – muito embora, a meu ver, tenha uma relação qualidade/preço muito boa.
Sou cliente antigo do Aleixo. Nem me recordo de quando por lá parei pela primeira vez, seguramente saído de um comboio ou a fazer horas para ele. Creio que sou ainda do tempo em que nem café era por ali servido, como também lembro o período, menos agradável, em que, para o tomar (mas de saco), éramos obrigar a deslocar-nos para uma sala feita bar, em bancos incómodos, onde se acertavam as contas finais. Hoje, esse espaço passou a ter mesas e foi aí que, há dias, almocei.(...)”
O Aleixo foi propriedade do senhor Ramiro e da dona Inês. Conheci-os a ambos, em especial a senhora, que sobreviveu ao marido. Tinham um casal de filhos, mas não foram muito imaginativos nos nomes que lhes deram: Ramiro e Inês. O Ramiro, um dia, decidiu separar-se e criou o restaurante “Pai Ramiro” (que nunca visitei). A iniciativa fracassou e o Ramiro regressou. Depois, foi a vez da Inês, que criou a Casa Inês (visitei e não fiquei cliente). Fracassou e disseram-me que ainda regressou à casa mãe. Agora, fechou, de vez, a Casa Aleixo. 

Depois de ter escrito aquele texto, ainda voltei algumas vezes ao Aleixo. Não obstante o brio do meu amigo Ramiro, senti algum declínio na constância da qualidade da casa. Talvez por isso, a frequência das minhas visitas diminuiu. A grande escola do Aleixo, um restaurante criado por um galego e que, dentro de nove anos, passaria a centenário, desaparece. 

Para trás, fica a memória das placas nas paredes que indicavam a “Sala de Operações”, onde se comia, o “Laboratório”, isto é, a cozinha, a “Farmácia”, onde se guardavam os álcoóis, e a “Sala de torturas”, onde antes se faziam as contas. Sem o Aleixo, é um certo Porto que desaparece. Nada de nostalgias! Olhemos em frente, com otimismo, porque por aquela cidade continua a comer-se muito bem.

8 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


o Porto é um laboratório de boa gastronomia!

" R y k @ r d o " disse...

Bom dia:- Tudo tem um inicio e um fim. Alguns fins são tristes e lamentáveis.
.
Tenha um dia feliz
Abraço

Anónimo disse...

Um filete de polvo e um bocado de arroz por quase trinta euros. Nunca lá fui, mas vi uma fotografia e ri-me. Peço desculpa. Posso estar enganado, pode ser uma experiência estratosférica, não sei. Eu vou com alguma frequência à zona de Lafões e já comi muitas vezes filetes de polvo em Vouzela, por exemplo. Deus me perdoe, posso estar enganado, mas parece-me que há muito que a tal Casa do Aleixo é mais uma tasca fina para os lisboetas que vão ao Porto e turistas estrangeiros.

Paulo Guerra disse...

“ Tudo tem um início e um fim.”

Até o nosso modo de vida. E as pessoas nas grandes cidades, com horários de trabalho que nem para os filhos têm tempo, vão continuar a lamentar-se que entram e saem do prédio e ninguém diz bom dia. Primeiro chegaram os hipermercados para sugar o dinheiro em tudo e mais alguma coisa por impulso e finalmente chegou a Amazon para sugar a alma. E sítios, outrora pujantes de comércio local, onde se forjava o verdadeiro sentido comunitário… já eram. Depois, sozinhos, queixem-se às multinacionais da sociedade de consumo. Ou ao pivot na televisão.

José Figueiredo disse...

Pois é!
Não há mal que sempre dure e bem que nunca acabe (ou ao contrário).
José Figueiredo

Anónimo disse...

O Aleixo estava caríssimo, a comida era pouca e o arroz cada vez mais seco. Não lhe augurava grande futuro....
Agora vou ao polvo do Veleiros ou ao Caneiro, que é maravilhoso.

Anónimo disse...

Senhor Paulo Guerra, eu posso indicar-lhe locais no Porto ou em imensos outros sítios, onde se forja ainda o espírito comunitário. A tal Casa do Aleixo já não tinha nada a ver com isso. Pode ter sido em tempos um local de convívio comunitário, sim. Não faço ideia se a comida merece todos os louvores. Arroz e filetes de polvo há muito bom noutros locais, sem o pedigree mediático da casa do Aleixo. Mas àquele preço é tão comunitário como qualquer outro restaurante fino.

Paulo Guerra disse...

Ainda bem. Eu também não me referi ao Aleixo em concreto. Que concordo há muito deixou de ser algo que associamos ao espírito comunitário. A referência tinha mais a ver com tudo tem um fim. Como outrora fortes comunidades, hoje desertas e pior, onde já ninguém se conhece. E claro que tal está muito ligado ao desaparecimento de todos os locais públicos onde se forjava essa identidade. De largos a lojas, a associações recreativas e até igrejas. Os primeiros locais onde assisti à transformação que refiro nem foi Portugal mas em Inglaterra. Onde a Amazon é fortíssima. Em Portugal uma das primeiras pessoas que ouvi preocupadas com a temática, há muito tempo, foi o Saramago. Também comungava como ele que uma das poucas vantagens de viver num país atrasado era ver a léguas o que aí vinha. Não era por acaso que ele chamava aos Hiper as novas Catedrais.

Outra coisa que acho interessante é a curiosidade quase mórbida com que algumas pessoas ligam aqueles canais temáticos do cabo para assistir àqueles casos de transtorno de acumulação compulsiva. Quando caminhamos todos para lá nas actuais sociedades de consumo. Uma família hoje já compra mais televisões, agora LCD, num ano que antigamente numa vida inteira. E só vai piorar. Quem tem a sorte de ainda viver inserido numa autêntica comunidade deve saber preservá-la. Porque viver para consumir nunca fez parte do nosso ADN.