Começo por transcrever parte de um texto que, faz agora precisamente quatro anos, escrevi na revista “Evasões”, onde, até me cansar da tarefa, mantive, por algum tempo, uma crónica gastronómica. O artigo sobre o Aleixo tinha o título provocador de “O polvo é quem mais ordena”.
“ No Porto há vários restaurantes clássicos, mas eu arriscaria dizer que, nos dias de hoje, nenhum tem os pergaminhos históricos do Aleixo.
O Aleixo fica em Campanhã, a dezenas de metros da mais movimentada estação ferroviária da cidade. Contudo, nem por isso sofre da banalização que, muitas vezes, afeta os lugares de restauração próximos dos centros de transportes coletivos. Ao longo de toda a sua existência, com altos e baixos, somados a crises e dissídios, a casa tem conseguido sustentar uma qualidade muito apreciável, sendo procurado por uma clientela fiel local e, em especial nos últimos anos, também pelos turistas que enxameiam o Porto. E, claro, por forasteiros como eu, que mapeiam o país das boas vitualhas.
O espaço do Aleixo é típico de um restaurante sem grandes sofisticações, mas com um ambiente acolhedor, quase caseiro. Não fora a pressão de clientes em dias de maior procura e seria tentado a dizer que recorda as saudosas pensões de província, nos tempos imemoriais do “bom e barato”. Estamos um pouco longe disso, isto é, continua bom mas, como não podia deixar de ser, porque a qualidade dos produtos tem de ser paga, já não é um restaurante qualificável como barato – muito embora, a meu ver, tenha uma relação qualidade/preço muito boa.
Sou cliente antigo do Aleixo. Nem me recordo de quando por lá parei pela primeira vez, seguramente saído de um comboio ou a fazer horas para ele. Creio que sou ainda do tempo em que nem café era por ali servido, como também lembro o período, menos agradável, em que, para o tomar (mas de saco), éramos obrigar a deslocar-nos para uma sala feita bar, em bancos incómodos, onde se acertavam as contas finais. Hoje, esse espaço passou a ter mesas e foi aí que, há dias, almocei.(...)”
O Aleixo foi propriedade do senhor Ramiro e da dona Inês. Conheci-os a ambos, em especial a senhora, que sobreviveu ao marido. Tinham um casal de filhos, mas não foram muito imaginativos nos nomes que lhes deram: Ramiro e Inês. O Ramiro, um dia, decidiu separar-se e criou o restaurante “Pai Ramiro” (que nunca visitei). A iniciativa fracassou e o Ramiro regressou. Depois, foi a vez da Inês, que criou a Casa Inês (visitei e não fiquei cliente). Fracassou e disseram-me que ainda regressou à casa mãe. Agora, fechou, de vez, a Casa Aleixo.
Depois de ter escrito aquele texto, ainda voltei algumas vezes ao Aleixo. Não obstante o brio do meu amigo Ramiro, senti algum declínio na constância da qualidade da casa. Talvez por isso, a frequência das minhas visitas diminuiu. A grande escola do Aleixo, um restaurante criado por um galego e que, dentro de nove anos, passaria a centenário, desaparece.
Para trás, fica a memória das placas nas paredes que indicavam a “Sala de Operações”, onde se comia, o “Laboratório”, isto é, a cozinha, a “Farmácia”, onde se guardavam os álcoóis, e a “Sala de torturas”, onde antes se faziam as contas. Sem o Aleixo, é um certo Porto que desaparece. Nada de nostalgias! Olhemos em frente, com otimismo, porque por aquela cidade continua a comer-se muito bem.
