segunda-feira, 1 de junho de 2020

America


6 comentários:

Jaime Santos disse...

A obsessão totémica de uma parte da população americana pelas armas ganha toda um outro significado quando olhada à luz dos eventos recentes. E refiro-me, bem entendido, a uma parte da população branca...

Joaquim de Freitas disse...

Sr.Jaime Santos:


A conquista do Oeste na recente série de tiroteios em escolas e locais públicos, armas de fogo, são omnipresentes na história dos Estados Unidos. A permissividade da legislação em matéria de comércio e posse é frequentemente vista como uma excepção americana.

As armas são mencionadas na própria Constituição dos EUA:
“Uma milícia bem regulamentada, necessária para a segurança de um Estado livre, o direito do povo a manter e a portar armas, não será violada. “
(Constituição dos EUA, Alteração II)

O problema das armas de fogo é um problema muito central: envolve não só as relações entre indivíduos e indivíduos com o Estado, mas também dos Estados federados uns com os outros e dos Estados federados com o poder federal. Um problema político por excelência é também um problema cultural, económico e social.

Mas creio, Sr. Jaime Santos, que o texto trata do “racismo”, mais que das armas, com a imagem do assassinato por asfixia do pobre George Floyd.

E isso é outro problema…A síndrome racial na Estados Unidos está enraizada em séculos de violência, discriminação, segregação social e desigualdade racial. O comércio de escravos, a escravatura e o apartheid deixaram a sua marca nas consciências. A violência racial de vários tipos que continua a alimentar o quotidiano dos latino-americanos e afro-americanos prova que a questão racial nos Estados Unidos e em todo o mundo é "uma ferida que ainda não foi cauterizada".

As estatísticas mais recentes do FBI apontam, em relação aos crimes de ódio cometidos nos Estados Unidos, que quase metade foi motivada racialmente... e mais de 66% das vítimas destes crimes racistas eram negras, uma tendência que se manteve estável na última década.

O que pode justificar a esperança de vida da América de 2020 para um afro-americano ser seis anos mais curto do que o de um homem branco? O encarceramento dos negros, seis vezes o dos brancos? Que branco ganha cerca de 70% mais do que uma afro-americana?

Jaime Santos disse...

Caro Sr. Freitas, Inteiramente de acordo, o que eu queria dizer é que as armas são vistas provavelmente como garantias de opressão e de segurança (esta ilusória) por parte da população branca. Não são só as armas que fazem parte da História dos EUA, o racismo também faz.

A paz social compra-se, ou com medidas tendentes à redução das desigualdades sociais e raciais (educação, saúde, políticas de emprego) ou com repressão...

E a posse de armas de fogo é uma poderosa mensagem sobre quem manda...

Anónimo disse...

Tenho familiares nos EUA, que ali vivem há dezenas de anos, totalmente inseridos na vida "americana", excelentes pessoas, mas quando toca a questões de raça são nitidamente racistas.
Tenho-me interrogado sobre isso, e concluí que talvez se explique pelo facto de parte da população negra ter uma atitude perante a vida nas antípodas dos nossos compatriotas: grande dependência de apoios sociais, famílias uniparentais (quantos miúdos negros crescem apenas com a mãe?), a agressividade da atitude/cultura rap, etc. Os roubos, os assaltos às lojas, armazéns, que sempre acontecem nestas alturas apenas reforçam aquele estereotipo.
E isto passa-se na Nova Inglaterra, não no deep south.

Anónimo disse...

Armas e racismo são um caldo de cultura made in USA muito específica.
As armas foram preponderantes para a grandiosa arrancada de costa a costa, para a conquista, guarda e manutenção da propriedade até ao Séc.XX; foram um factor de construção da nação e glória individual ou familiar tão forte que acabou como mito da nação, claro, mitificado pelos vencedores.
Imediatamente terminada a ocupação territorial de tão imensa vastidão de terra a escravatura foi a sopa no mel para a exploração dos mesmos infindáveis terrenos que absorviam toda essa mão de obra pela sopa diária e trabalho escravo.
Os USA são, em parte substancial e especificamente em grande parte cultural, o resultado deste caldo dualista que ao tornar-se absoleto se vai transformando numa quase perfeita química humana explosiva.
Aquilo que foi factor e especial catalizador de progresso e desenvolvimento histórico foi evoluindo para factor de decadência.
E o problema é que, se alguns sábios e políticos made in USA já se aperceberam disso outros há, como Trump, que incompetentes, burros e broncos incapazes de imaginar o futuro só vêem o passado, incapazes de pensar o futuro regressam ao pensamento do passado, incapazes de imitar e projectar o passado com novos feitos e glórias inovadoras voltam-se para as glórias impraticáveis no presente e menos ainda no futuro.
As tentativas de regresso ao passado dos impérios são sempre farsas ou simulacros de uma grandeza em decadência e decomposição.

jose neves

Jaime Santos disse...

O José Neves fala da conquista do Oeste como um mito grandioso, só que convém não esquecer que foi construído sobre os cadáveres dos membros das populações nativas chacinadas. E esquece que o desenvolvimento industrial dos EUA foi o responsável pela sua preponderância enquanto grande potência e depois super-potência no século XX, não o trabalho escravo, que a máquina veio aliás tornar obsoleto, ele persistiu no Sul porque permitia lucros fabulosos aos proprietários das plantações. Aliás, foi esse mesmo desenvolvimento industrial que determinou a vitória do Norte na Guerra Civil...

A crise actual da América tem na verdade uma causa diferente, sendo que as armas e o racismo são dois elementos de um caldo de cultura onde impera a violência. Na verdade, a causa principal é provavelmente a decadência da América enquanto potência industrial. Permanece naturalmente como potência científica e tecnológica (e militar), mas esses são sectores que não fornecem empregos e esperança a uma parte da população que possibilitou a eleição de Trump.

Veremos como é que, em face da situação caótica actual a população irá reagir. Irá alinhar na estratégia de medo de Trump ou na estratégia de retorno a uma normalidade mais ou menos decente de Biden. Este carece para já de uma mensagem poderosa como foi a de Obama e tem como ónus o facto de ter sido seu Vice-Presidente... Para se prometer algo de novo teria sido precisa uma cara nova (não certamente Sanders)...