quinta-feira, 4 de junho de 2020

Nakhchivan


Quando entrei naquele quarto de hotel em Nakhchivan, daqueles que têm um aspeto que nos leva a hesitar em sequer vir a utilizar a roupa da cama, tive um rebate de consciência. Dei comigo a pensar que vários dos embaixadores junto da Unesco, que tinham ido comigo de Paris a um congresso a Baku, no Azerbaijão, haviam sido por mim convencidos a alinhar na aventura que era fazer uma surtida a Nakhchivan.

Comecemos pelo princípio. O Azerbaijão organizava com regularidade um congresso cultural, nesse ano de 2012 em torno de uma temática central que já não recordo. Decidi nele participar, confesso, porque, desde as descrições de Calouste Gulbenkian, tinha uma forte curiosidade em ir a Baku. Havia pago do meu bolso a hospedagem, sendo a viagem, desde Paris, oferecida pelo governo local, dada a minha qualidade de “keynote speaker” convidado num dos painéis.

Na papelada que, à chegada, nos foi entregue, vinha uma oferta: o governo azeri dava-nos a escolher uma de duas viagens de dois dias, na parte final do congresso. As alternativas eram uma ida de autocarro ao Azerbaijão profundo, com comezainas, folclore e visitas culturais, ou uma ida de avião a Nakhchivan. Qualquer das deslocações só se faria se houvesse um quorum mínimo de participantes.

Dos meus colegas, fui quem mais “puxou” pela deslocação a Nakhchivan. Porquê? Porque aquela tinha sido uma das mais misteriosas repúblicas soviéticas, com uma história bem curiosa, que sempre justificara o seu estatuto institucional muito atípico. Como bem atípica ainda se mantinha a sua situação presente.

O Nakhchivan - de que muitos dos leitores nunca terão ouvido falar e que duvido algum tenha visitado - é um território autónomo do Azerbaijão, tão “autónomo”, nos dias de hoje, que não tem qualquer ligação por terra com o resto do país. Trata-se de um enclave isolado, com uma curta fronteira de menos de oito quilómetros com a Turquia, outra com o Irão, uma outra ainda com a Arménia, tendo o território do Nagorno-Karabakh (disputado pelo Azerbaijão e pela Arménia) a tapar-lhe o acesso ao resto do Azerbaijão, de que faz parte. O Nagorno-Karabakh é uma área “neutralizada” pela disputa territorial, onde, nos anos 90, teve lugar uma guerra muito mortífera, sendo ainda palco de regulares incidentes armados. Para chegar de Baku a Nakhchivan é, pois, necessário ir sempre de avião, pedindo os azeris de empréstimo o espaço aéreo iraniano, dado que tentar voar sobre o Nagorno-Karabakh ou sobre o país seu arqui-inimigo, a Arménia, seria um suicídio garantido. Por todas estas razões, pode perceber-se que uma ida àquele bizarro destino não fosse uma coisa tida por cómoda para alguns dos diplomatas que comigo viajavam.

Muitos desses meus colegas inclinavam-se para aceitar o convite para o passeio sereno, de autocarro, pelo território, oportunidade para comprar tapetes e fazer belas fotografias. Fui eu, numa noite de conversa, em Baku, quem conseguiu juntar um grupo que tornara aquela ida a Nakhchivan possível. Invoquei a História e também devo ter inventado histórias que lá os convenceram.

Daí a minha preocupação culposa: o hotel era sinistro, a comida pouco menos, todo o ambiente parecia saído de um filme soviético dos anos 50, com uma coreografia teatral a envolver aquela que devia ser uma rara visita de uma delegação de diplomatas estrangeiros. À nossa volta, havia umas lojas “fake”, com coisas para um turismo que manifestamente não existia, salvo para aquele grupo de maduros, de várias nacionalidades, que o embaixador português conseguira arrebanhar, para poder concretizar o objetivo de uma ida a um local que o seu vício por lugares estranhos motivara.

A cidade de Nakhchivan, capital do território do mesmo nome, não é muito grande. Foi-nos proposto um passeio de autocarro. Eu trazia de Paris um raro guia com um mapa da cidade e, com base nele, comecei por pedir para passarmos junto da mesquita iraniana. Assisti então a uma conversa embaraçada entre o guia, que falava um péssimo inglês, e o motorista, tendo ambos concluído que... não sabiam onde era! Voluntariei-me: “Eu indico. Vai-se por esta avenida abaixo, corta-se na 3ª rua à esquerda e a mesquita fica numa praça ao fundo”. Qual quê! Novo conciliábulo, concluído pela recusa absoluta, com um argumento definitivo: a zona estava vedada, por obras. Pois...

E lá fomos, como é de regra nestes regimes, apenas aos locais a que eles nos queriam levar. Desde logo, para grande excitação de alguns dos meus colegas, àquilo que se diz ser o tumulo de Noé. Três anos mais tarde, fui de Lisboa a um congresso na Arménia e, perto da capital, Ierevan, lá fui ver ... os restos da Arca de Noé. Noé está muito presente no Cáucaso do Sul, sempre ligado ao monte Ararat, que ali prepondera na paisagem!

O ponto alto da visita seria, no entanto, a ida ao museu em honra de Heydar Aliyev, o filho mais ilustre de Nakhchivan, presidente do Azerbaijão por uma década, pai do atual líder. A visita foi longa, com uma explicação detalhada da vida da figura, desde o berço à morte. A certo ponto, a guia do museu esclareceu mesmo que fora Aliyev quem “livrara o Azerbaijão do comunismo”.

Aí, passei-me. Um diplomata, ainda por cima convidado, deve conter-se, mas a minha irritação foi mais forte do que eu: “Mas o presidente Aliyev não foi membro do Soviete Supremo da União Soviética?”. Aliyev havia sido, aliás, muito mais do que isso: foi uma figura destacada do KGB e da governação comunista no Azerbaijão. O seu conflito foi com a “perestroika” de Gorbachev, isto é, com quem quis “democratizar” o comunismo. Mas não entrei nestes detalhes, claro.

A guia sorria, perdida, não sabendo o que fazer: não ousava contraditar-me, mas a minha questão estava fora do seu roteiro. Recordo-me que as minhas colegas do Omã e da Albânia, duas boas amigas, imploraram, em voz baixa, que eu não embaraçasse a senhora e eu lá “deixei cair” os meus preciosismos históricos. E a palestra prosseguiu, para grande alívio dos nossos acompanhantes.

Não vou maçar quem aqui me lê com muitos mais detalhes dessa viagem, que também incluiu uma longa deslocação à fronteira iraniana, junto da qual havia uma espetacular mina de sal, transformada em clínica para doenças pulmonares.

A noite acabou, divertida, com uma refeição bem regada a vodka, como é de regra naquelas paragens. No final, um responsável local, com ar de autoridade política, aproximou-se de mim e disse, num tom cujo sentido não era de leitura unívoca: “Já vimos que é bastante interessado pela nossa terra. Esperamos vê-lo por cá de novo. Nessa altura, poderá ir ver a mesquita iraniana. E até o poderemos levar a outros lugares, que nem imagina que temos, para os estrangeiros curiosos...” A conversa acabou por ali. Desafiar ditaduras pode ter um preço.

Para o que me importa, nesse dia cumpri o meu objetivo de ir a Nakhchivan. Como costumava dizer alguém que já tive como amigo: “Você gosta de fazer ‘vezinhos’ em várias coisas bizarras, pelo mundo”. É verdade. Cada um é como é.

3 comentários:

Anónimo disse...

Há sempre a hipótese de, aquilo que achou ser uma ameaça, poder ser uma proposta de "diversão", para convidados especiais.

Adiante...

Uma vez, numa excursão à Turquia, perguntei à guia qualquer coisa sobre os curdos. Foi uma pergunta politicamente neutra, de curiosidade "geográfica", digamos. Recebi uma resposta seca "Na Turquia somos todos turcos!". Fim de conversa e de sorrisos no resto da excursão.

Anónimo disse...


Às tantas, sobre Aliyev e Gorbatchov, escreve o Sr.Embaixador: "(…) "democratizar" o comunismo (…)". Ora, salvo melhor, há ali uma contradição nos termos. Com efeito, sendo na semântica, na doutrina, na teoria prevalecente, o comunismo a forma superior da democracia, do bem comum das gentes comuns, parece-me aquela formulação uma narrativa próxima da novilíngua… Penso eu de que, Sr. Embaixador.

João Pedro

Anónimo disse...

"...uma espetacular mina de sal, transformada em clínica para doenças pulmonares."
interessante!
Mina Sal Gema de Loulé Visita Virtual
https://www.youtube.com/watch?v=bYV_QXvtEsY