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sábado, junho 20, 2020

Lula no Real Gabinete


Foi em 2008. O presidente Cavaco Silva visitava oficialmente o Brasil, no quadro das comemorações da chegada da corte portuguesa, que tinha tido lugar 200 anos antes. Um conjunto de cerimónias teve lugar no Rio de Janeiro.

Pelo que me dizia respeito, como embaixador de Portugal, desde o primeiro momento, insisti muito em incluir, no programa da visita, uma deslocação do presidente Lula ao Real Gabinete Português de Leitura.

O Real Gabinete é uma instituição “sui generis”. Num edifício de desenho eclético, onde prevalece um neomanuelino com distorção transatlântica, que recorda um pouco a estação do Rossio ou o hotel do Bussaco, aí repousam centenas de milhares de livros em língua portuguesa, sendo aliás o maior repositório bibliográfico existente fora do nosso país.

Mas o Real Gabinete é bastante mais do que um edifício e uma biblioteca: é uma expressão simbólica do extraordinário esforço da comunidade portuguesa para conseguir erigir um monumento representativo da dignidade da sua presença no Brasil, da empenhada contribuição dada por muitos milhares de portugueses para a construção daquele país.

Alguns Gabinetes de Leitura, bem como outras bem antigas instituições criadas pela nossa comunidade, nomeadamente na área da saúde e da solidariedade social, continuam a existir, ainda hoje, no Rio e em outras cidades do Brasil, grande parte, contudo, já sem a aura de outros tempos.

Infelizmente, o Real Gabinete continua a não ser muito conhecido dos brasileiros, nem sequer dos muitos turistas portugueses que, no Rio, lhe preferem o Calçadão, Ipanema ou o Leblon. Situado numa zona que veio a tornar-se algo periférica, só lentamente terá começado a surgir, nos últimos anos, em alguns itinerários turísticos e culturais.

Em tempos idos, para os portugueses desafetos ao regime ditatorial português, o Real Gabinete representava também uma certa "colónia" de matriz salazarista, que tendia a confundir o respeito pelo nosso passado com a adesão ao padrão político autoritário que preponderava em Lisboa.

Sou um "fã” do Real Gabinete, confesso. Visitei-o, a primeira vez, em 1989. Fui lá bastantes vezes, durante o tempo em que fui embaixador no Brasil. A instituição, para mim, transcendeu sempre qualquer conotação política que lhe tivesse estado associada.

Uma visita do presidente Lula ao local, acompanhado pelo chefe de Estado português, parecia-me ser uma excelente forma de sublinhar a força da relação luso-brasileira, em especial naqueles dias em que o Brasil nos estava a ajudar a melhorar a imagem que dom João VI conservava na nossa própria memória coletiva nacional.

Além disso, posso agora revelar que procurei utilizar essa visita como uma homenagem, indireta e subliminar, do poder político brasileiro à matriz fundacional daquele país. E isso tinha ainda maior significado porquanto seria feita por um presidente oriundo de uma área político-ideológica onde tradicionalmente se não acolhem, por ali, os maiores amigos de Portugal.

A minha sugestão foi facilmente aceite em Lisboa. Nas autoridades brasileiras, no entanto, a questão foi muito mais complexa, tendo a minha ideia sido resistida durante algum tempo. Porém, com algum esforço de convicção, ajudado por alguns amigos que consegui mobilizar no Itamaraty (obrigado, Ruy Casaes) e no Planalto (obrigado, Marcel Biato), ela acabou por ter sucesso. E, ao que sei, em derradeira instância, Lula, que tinha uma afeição evidente por Portugal, terá ajudado a essa decisão.

Quando a hora chegou, eu estava com uma imensa curiosidade para ver a reação de Lula. Insisti que fosse recebido à porta por Cavaco Silva, decisão que também deu muito trabalho para ser aceite. Porquê? Porque o Real Gabinete é uma instituição de direito público brasileiro e o presidente português não podia, formalmente, ser o anfitrião no local. Mas lá se conseguiu também isso, depois de algumas conversas!

Vi que Lula vinha já impressionado com o aspeto exterior do edifício. Depois, no trajeto que havíamos cuidado que evitasse a passagem pela sala onde está o busto do ditador de Santa Comba, seguiu, acompanhado de Cavaco Silva, até uma espécie de palanque, no centro do majestoso “hall”, encimado por uma cúpula de vitrais, cercado de varandas de estantes, com a imensidão bibliográfica ali recolhida. Aguardavam os dois presidentes, nesse espaço, algumas dezenas de pessoas, maioritariamente da comunidade portuguesa e de meios empresariais e culturais do Rio.

Lula não deixava de olhar em volta, claramente deslumbrado. Naqueles segundos, em que defrontou e prescrutou a imensidão de estantes, recheadas com o quase meio milhão de livros, naquele espaço belíssimo, com uma dimensão grandiosa, fiquei com a sensação de que terá entendido mais sobre o papel que os portugueses tiveram no Brasil do que em todo o resto da sua vida. A sua cara não iludia, os comentários que trocava com os colaboradores próximos eram de um genuíno deslumbre. Fiquei confortado com a sugestão que tivera de ali o levar.

Ao lado de Cavaco Silva, Lula tomou lugar na tribuna. Continuava, incessantemente, a olhar em torno. Começaram os inevitáveis discursos. Lula encerraria. Na primeira fila, onde eu estava sentado, via-o distraído, a mirar aquela peça arquitetónica, que imagino que até ali nem sequer suspeitara que existia, com semelhante dimensão.

A certo ponto, vi Lula acenar, levemente, para alguém que devia estar num dos varandins superiores, onde se situavam muitas das estantes com livros, situadas atrás da audiência. Discretamente, como algumas outras pessoas, voltei-me para tentar perceber a quem se dirigia o gesto: Lula estava a dizer adeus a um grupo de empregadas, com bata de trabalho, que se haviam colocado, lá no alto, para verem o seu presidente. Era Lula no seu melhor...

Entrevista ao "Público" e à Rádio Renascença

  Ver aqui:  https://vimeo.com/1159303777  ou aqui  https://rr.pt/noticia/amp/hora-da-verdade/2026/01/29/seixas-da-costa-portugal-teve-posic...