sexta-feira, setembro 27, 2019

Trotsky, Chencho e a madre superiora


Faz agora 50 anos, tal como acontece no dia de hoje, eu estava estendido na cama de um hospital, recém-operado a um joelho (o mesmo!). Então foi no Porto, agora é em Lisboa.

Um aquecimento mal feito, a anteceder um treino de atletismo, no estádio universitário, acabou com a (nem por isso muito promissora) carreira de um esforçado corredor de velocidade do CDUP.

Essa simples intervenção (então) ao menisco, à antiga, não terá corrido bem, como, semanas depois, já em Lisboa, o médico do Sporting, Aníbal Costa, veio a constatar, entregando-me então nas mãos geniais de Graça Gordo, o sargento massagista que acompanhava o mítico Manuel Marques, no clube e na seleção nacional. Que fez por mim tudo o que era então possível. A complexidade das operações ao meu joelho aumentou entretanto bastante, como que correspondendo à passagem do tempo...

Mas voltemos ao hospital no Porto, à casa de saúde da Carcereira, nesse ano de 1969. Por ali estive uns oito dias, porque essa era a regra, mesmo para uma simples rotura de menisco. 

Num desses dias, vi entrarem-me pelo quarto dentro duas freiras. Pensei que se tratasse da assistência religiosa do hospital. Não era. Uma das senhoras explicou-me que era a madre superiora do Lar de Santa Teresa, onde então estava hospedada a minha namorada (hoje minha mulher), que estudava no Porto. Fiquei imensamente grato. A visita das freiras era um gesto de uma enorme simpatia.

A nossa conversa, se bem que agradável, não foi muito longa. Fui dando conta que a madre superiora olhava, com alguma curiosidade, para os dois ou três livros (agora tenho também três livros comigo...) que eu tinha levado para ler durante o internamento. Um deles, o que estava mais à vista sobre a mesa de cabeceira, era a biografia de Léon Trotsky, na versão francesa “Ma Vie”, numa edição de bolso (um bolso “largo”, porque era um calhamaço), da “Poche” (por onde andará?)

Ao despedir-se, aproximando-se da cama, notei que ela fixou muito o livro. Não excluindo poder ter sido apenas uma perceção minha, fiquei a achar, para sempre, que ela mudou para uma cara bastante mais “fechada” do que a que antes me dedicara. Com que impressão terá ficado a madre superiora do namorado da sua hóspede, a ler o teórico da “revolução permanente”?

Não espero vir agora a receber, aqui pelo hospital, a visita de nenhuma freira. Se acaso isso viesse a acontecer, a única biografia que ela iria encontrar à minha cabeceira era a de Chencho Arias, um amigo diplomata espanhol de quem, há dias, em Badajoz, comprei o divertido “Yo siempre creí que los diplomáticos eran unos mamones”. Que diabo pensaria ela de mim ao ver tal título?

6 comentários:

  1. A Quinta da Carcereira foi o terreno onde foi construída a Casa de Saúde da Boavista.
    http://manueljosecunha.blogspot.com/2015/05/quinta-da-carcereira-porto.html?m=1

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  2. Anónimo08:58

    És el plural de la palavra mamón.

    "Pero que mamón, no hace nada sin que le den permiso..."

    "O"

    La definición que más me gusta:

    Mamón = sacana

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  3. Anónimo09:24

    Esse diplomata espanhol fez a apresentação desse livro em Portugal , há largos meses atrás ...

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  4. Francisco, desejo-lhe as melhoras.

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  5. Anónimo19:19

    Essa lesão deve ter acontecido a torcer-se todo enquanto via uma das últimas exibições de um certo grupo de futebol...

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  6. Anónimo09:52

    A apresentação do livro do diplomata espanhol teve grande frequência de portugueses , pois muita gente o conhecia ... Já li o livro e o título não tem nada a ver com o conteúdo ...

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