Foi sempre uma “ilha” em Lisboa. A York House, durante muitos anos, era um hotel diferente, na rua das Janelas Verdes. Por lá se hospedaram amigos estrangeiros que, na capital portuguesa, pretendiam fugir ao óbvio. Muitos ingleses, claro. Também ali ficaram, por épocas, alguns portugueses “estrangeirados”, retornados a Portugal, seduzidos pelo atipicismo do lugar ou talvez por lhes parecer que ali “cheirava a estrangeiro”. Certa gente do Norte, com dinheiro e gosto, encontrou também ali o seu pouso: foi na York House que Sá Carneiro inicialmente se instalou, quando recém-chegado a Lisboa. Alguns outros governantes embarcados em Campanhã seguiram-lhe o exemplo.
A “minha” York House era outra, era a do pátio da casa principal, ao ar livre, no Verão, para almoço, ou ao final da tarde, para um copo discreto no bar, que se trazia para os bancos exteriores. Foram dezenas as vezes que por ali parei. Nesse tempo, em que a variedade da oferta restaurativa não era o que hoje é, pelo restaurante da York House (que nunca ninguém conheceu pelo seu nome, “A Confraria”) passou meia Lisboa - política, jornalística, artística, social. E diplomática, claro. Se não se cuidava em fazer atempada reserva, a subida daquela penosa escadaria podia muitas vezes acabar por ser debalde, até porque a poucos passava pela cabeça ir comer “lá para dentro”, para a parte interior da casa, uma área onde me recordo que só se jantava, num ambiente pouco apelativo, que nunca deixou de ser algo incaraterístico.
Dizem-me que a York House, há uns anos, foi comprada por franceses. E que muita coisa mudou. Ontem, numa noite soberba de Lisboa, sem vento e de bela temperatura, lembrei-me de lá voltar para jantar, naquele pátio imbatível.
O restaurante parece estar agora voltado “para dentro”, dedicado aos hóspedes que alugam os quartos. Os portugueses, ao que julgo saber, pouco por ali já vão, tanto mais que, ao almoço, a vista para o guindaste e para o que deve ser a incomodativa obra vizinha não deve estimular muito as conversas. Nota-se, aliás, que alguma elegância do passado, que caraterizava o lugar, já se perdeu um pouco: a frequência parece ser hoje a da Lisboa turística, para francês da classe média, em que a cidade se está a converter.
Contudo, feitas as contas, somando o ambiente que continua único, reservado e acolhedor, com a simpatia do pessoal e a apreciável qualidade da comida, com um preço razoável, gostei de regressar à York House.
