Conheci-o na Noruega, há quatro décadas, numa delegação parlamentar, que ele chefiava. Eu estava encarregado de negócios, na ausência do embaixador. Fui esperar a delegação ao aeroporto e levei-a ao hotel.
Notei que António Arnaut era um homem muito educado, coimbrão na forma, voz forte e inconfundível. Ele não tinha de saber quem eu era e, pela formalidade que começou por usar no seu trato para comigo, fiquei com a sensação de que via em mim uma certa imagem que, pelo menos à época, se colava muito aos quadros das Necessidades.
No almoço do dia seguinte, oferecido pelos noruegueses, ficámos lado a lado, na mesa da nossa delegação. Na conversa, falou-se de muitas coisas mas, a certo passo, veio à baila, entre os deputados portugueses presentes, nem sei bem a que propósito, a reunião da Oposição Democrática que, em 1969, tivera lugar em S. Pedro de Muel. Arnault era o único, de entre eles, que havia estado presente nessa histórica ocasião.
Num determinado momento, Arnaut contou uma cena ocorrida numa das sessões dessa reunião, que identificou como tendo sido presidida por Vasco da Gama Fernandes. Eu permiti-me corrigir: “Tenho ideia que era o José Vareda quem estava a chefiar a sessão, nessa altura. Mas posso estar enganado e a memória trair-me”.
Ainda estou a ver os olhos de Arnaut, por detrás daqueles óculos, arregalarem-se, olhando-me, verdadeiramente, pela primeira vez! Afinal, o jovem diplomata português que, interinamente, chefiava a embaixada em Oslo não era um daqueles “eunucos políticos” que, na visão simplificada de muita gente, o MNE produzia em abundância. A curiosidade ou a cerimónia dos outros deputados não foi suficiente para perguntarem a razão pela qual eu tinha partilhado com Arnaut aquela experiência.
Notei que António Arnaut também teve o cuidado de não ir mais longe, à mesa, na exploração da cumplicidade política potencial que o meu comentário lhe suscitara. Afinal, a delegação parlamentar que chefiava era multipartidária e viviam-se os tempos do governo AD. Mas a simpatia com que, a partir daí, nesse almoço, passou a tratar-me foi muito evidente. À despedida, o nosso aperto de mão foi muito mais caloroso.
A vida fez-me cruzar bastantes mais vezes com António Arnaut, que morreu no ano passado. Um homem que conseguiu concretizar o sonho do Serviço Nacional de Saúde, uma das grandes conquistas da Revolução de Abril, cuja criação agora se comemora.
