Conheci Carlos Moedas em Paris, quando aí foi com Passos Coelho para contactos com setores políticos portugueses e franceses, ainda antes da coligação PSD/CDS ter ganho as eleições legislativas de 2011. Voltei a cruzá-lo com frequência nos anos seguintes, já como secretário de Estado do novo governo.
Um dia de 2012, numa das suas idas a França, onde eu era então embaixador, sugeri-lhe um contacto com Jacques de Larosière, uma reputada personalidade do mundo político-económico francês.
Larosière havia sido governador do Banco de França e do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, além de presidente do FMI. Tinha sido recente responsável por um importante relatório solicitado pela Comissão Europeia. Era, à época como ainda é hoje, aos 90 anos, consultor do BNP - Paribas. Tinha tido com ele vários contactos, tendo notado o cuidado com que acompanhava a situação portuguesa, pelo que achei útil que Moedas o ouvisse, na leitura (crítica) que ele fazia da implementação do programa da “troika”.
A conversa entre os dois decorreu na embaixada, durante bem mais de uma hora. Limitei-me a assistir, constatando o que já sabia ser a considerável diferença de perspetivas entre Larosière e Moedas, isto é, o governo português. Carlos Moedas, engenheiro de formação, tirara o seu curso em França, na prestigiada escola de “Ponts et Chaussées”, pelo que falava muito bem a língua francesa, o que facilitou muito a interlocução entre os dois.
No fim da conversa, acompanhei Larosière até ao carro. Foi então que, pelo caminho, lhe ouvi isto: “Este encontro foi muito interessante. Foi para mim um grande gosto conhecer o vosso ministro (os governantes, em França, são sempre tratados por ministros, qualquer que seja o seu grau, mantendo o título social para toda a vida). Quero dizer-lhe que muito raramente tenho encontrado uma pessoa tecnicamente tão bem preparada, no desempenho de uma função política desta natureza. É muito difícil, na vida pública francesa, deparar com figuras políticas que revelem esta capacidade e preparação. Mas, como terá reparado e já sabia pelas nossas conversas anteriores, eu acho que o vosso brilhante ministro, e o governo que ele representa, seguem um caminho errado e que algumas das medidas que tomam não vão dar os resultados que eles preveem. Mas, uma vez mais, digo-lhe: é uma figura de grande qualidade. Fiquei impressionado.”
Ao início da manhã de hoje, contei publicamente esta história, a anteceder uma apresentação feita por Carlos Moedas a empresários portugueses. E não deixei de recordar algo que todos sabemos: nos últimos cinco anos, Carlos Moedas foi um excelente comissário europeu, dando grande visibilidade à sua pasta e tendo, em permanência, cooperado lealmente com as autoridades portuguesas, como o próprio governo tem destacado .
