O debate de ontem, entre António Costa e Rui Rio, foi interessante. Entre os dois homens passa uma corrente de simpatia pessoal, com certeza fruto do tempo em que ambos lideravam as duas mais importantes autarquias portuguesas.
Rio partiu para este debate sob a ameaça de um resultado catastrófico, como todas as sondagens apontam, no dia 6 de outubro. As expetativas eram, assim, muito más e foi “contra elas” que a sua prestação foi avaliada. E, nesse registo, ficou aprovado. Rio tem um estilo curioso, fala das coisas muitas vezes com a linguagem do cidadão comum, desprezando algum rigor, mesmo terminológico. Apenas na economia procura alguma precisão. O aspeto mais sedutor da sua mensagem é dado pela sinceridade que transmite, a ideia de que, perante um argumento convincente do outro lado, não terá pejo em concordar. Há uma autenticidade desarmante em muito daquilo que diz, muito rara na política “tribal” que por cá se instalou. Veja-se a sua indignação sobre os “julgamentos na praça pública” e os ataques à magistratura - temas que sabe que desagradam à direita e a muita imprensa, mas que ele insiste em abordar, porque claramente acredita naquilo que afirma.
Percebe-se que Costa tem alguma dificuldade em debater com Rio. Não porque não seja capaz: Costa é muito melhor preparado politicamente do que Rio e ser-lhe-ia fácil desestabilizá-lo, tornando-o “irritadiço”, retirando-lhe a bonomia que lhe dá alguma graça, obrigando-o a uma postura defensiva, que explorasse ainda mais as suas múltiplas contradições. Porém, taticamente, não convém a Costa partir para o ataque contra o líder do PSD, porquanto a sua vitória far-se-á precisamente com o voto de muitos de quantos, no passado, votaram no PSD e cujo campo não convém hostilizar excessivamente. Costa sabe que, para ter uma maioria absoluta, tem de ter muito eleitor conservador consigo. Por isso, porque o primeiro-ministro quer transmitir uma imagem “mainstream”, começou por atacar o Bloco, distanciando-se do seu radicalismo, sabendo que o BE é a “bête noire” da direita. A defesa que agora faz dos juízes é, como antes se dizia, “de fazer chorar as pedras da calçada”... Muitos dentro do PS terão ontem ficado mais ao lado da indignação de Rio sobre a ”justiça na rua” e muito menos do silêncio na matéria do secretário-geral socialista - silêncio esse que deve ter sido ressentido e ecoado na Ericeira. Se a isso somarmos as reiteradas proclamações sobre o rigor orçamental, está feito um “pacote” que soa a música celestial nos ouvidos conservadores. Já só falta Centeno aparecer na campanha...
Rio ganhou e Costa perdeu? Rio melhorou e Costa estabilizou. Alguns indecisos, se, no dia 6, ainda se lembrarem do debate de ontem e se, no decurso da campanha, Rio não “estragar” tudo, podem optar por vir a votar PSD. Assim, um evidente “derrotado” do debate de ontem é Santana Lopes, que estava a ser o “muro das lamentações” de muitos PSDs que andavam desiludidos com a “performance” do líder e que ontem podem ter sido convencidos a voltar ao redil. Menos seduzível será a ala passista, que agora se sente atraída pelo radicalismo de direita caceteira e liberal, mas que parece irrecuperável por Rio.
Começo a ficar com a convicção de que Rui Rio, se fizer uma boa campanha e tiver um resultado não inferior a 25% pode conseguir manter-se à frente do PSD. Provavelmente, nesse cenário, o PS não teria uma maioria absoluta, o que seria uma má notícia para Costa. A compensação, também para ele, seria a muito boa notícia da continuidade de Rio.
Até ao lavar dos cestos são as vindimas? É verdade e esta é a época delas.