terça-feira, 3 de setembro de 2019

Uma improvável amizade


Há dias, numa cerimónia pública, em Lisboa, perguntei a quatro figuras que ocuparam importantes cargos como ministros da democracia se identificavam um senhor idoso que estava sentado num canto. Todos, sem exceção, foram incapazes de colocar um nome naquela cara. E, ainda antes que eu lhes satisfizesse a dúvida, viram, com curiosidade, eu e esse cavalheiro darmos um forte abraço. Tratava-se Rui Patrício, o último ministro dos Negócios Estrangeiros da ditadura.

Conheci pessoalmente Rui Patrício quando cheguei ao Brasil, como embaixador, em 2005. Foi em casa de Alberto Xavier, um breve governante do último executivo de Marcelo Caetano. Naquela que acabou por ser uma longa e agradável noite de conversa, falámos de amigos comuns e trocámos histórias de vida. 

Eu tinha bastante curiosidade em conhecer o último ministro dos Negócios Estrangeiros do regime para cujo derrube tinha modestamente contribuído, em 1974. Ao Rui, presumo, terá sido interessante saber um pouco mais do novo representante diplomático que Lisboa mandava para o Brasil, dos muitos que conhecera desde o exílio que se auto-impusera, já depois da Revolução. Lembro-me bem de, nessa noite, lhe ter dito, na presença de um seu filho, que seria imperdoável se não publicasse as suas memórias.

Durante os anos que permaneci no Brasil, Rui Patrício e eu construímos uma muito agradável convivência, chegando mesmo a planear escrever um livro "a dois" - uma espécie de cruzamento de leituras sobre o papel de Portugal no mundo, antes e depois do 25 de abril. Julgo que o Rui não me levará a mal a revelação pública desta nossa ideia. Por insuperáveis dificuldades de agenda, mas também por alguma pressentida diferença na filosofia de abordagem do trabalho, nunca levámos a ideia à prática. Pela minha parte, tive pena.

Há uns anos, Leonor Xavier disse-me que estava a fazer uma longa entrevista ao Rui, que iria passar a livro - “A vida conta-se inteira”. Mandou-me o texto e, sobre ele, escrevi um comentário que surge publicado na contracapa do livro: "Rui Patrício, um homem sem angústias na fidelidade ao seu passado, ajuda-nos a melhor entender certas decisões assumidas na política externa do Portugal de então, num curioso retrato, a preto e branco, do estertor da ditadura – uma foto, em alto contraste, de dois mundos separados por uma certa noite de Abril."

Rui Patricio vive, desde 1974, no Rio de Janeiro. Tem hoje 87 anos e manteve uma jovialidade que sempre apreciei. Devo-lhe muitas gentilezas, durante os meus tempos do Brasil: fez questão de estar presente em todas as intervenções públicas que fiz no Rio - da PUC ao Real Gabinete, passando por eventos económicos e culturais. Visitou-me depois em Paris, onde, em jantares, cruzámos memórias dos tempos do caetanismo, embora não tivéssemos reconciliado a nossa diferença de perspetivas sobre as grandes dinâmicas desse período. Ficámos amigos. Uma improvável amizade.

1 comentário:

Anónimo disse...

Excelente Ministro dos Negócios Estrangeiros ... numa época que formou óptimos futuros diplomaras , dos quais talvez nenhum esteja ainda no activo ...