quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O adeus a Bolton


John Bolton foi a terceira escolha de Donald Trump para Conselheiro de Segurança Nacional, depois de Flynn cair em desgraça pela “Russisn connection” e do rigor de McMaster ter feito perder a paciência ao presidente. Bolton era um conhecido radical em política externa, descrente na diplomacia e fervoroso adepto dos modelos de “regime change”, advogando que o caso líbio servisse de exemplo para a Coreia do Norte e o Irão. 

Muitos se recordam dos seus “infamous” tempos como representante permanente na ONU, de onde saiu com fama de doido. Temeu-se o pior, quando ele entrou na Casa Branca. Pensava-se que, com ele junto do ouvido de Trump (que sempre disse que o pior de Bolton era o seu farfalhudo bigode), o Departamento de Estado (o MNE americano) iria perder ainda mais peso, tanto mais que o presidente vivia crescentemente irritado com a gestão de Tillerson à frente da diplomacia americana.

Trump, contudo, já deu mostras de ser menos belicoso, na prática, do que o seu discurso jingoísta pode fazer pressupor. A prova é que Bolton não só o não convenceu a derrubar Kim Jong-Un como, ao que parece, o presidente começaria a estar cansado dos seus constantes conselhos para enveredar por uma resposta bélica no caso do Irão. Veio entretanto a constatar-se que a chegada de Mike Pompeo ao Departamento de Estado, depois da saída de Tillerson, acabou por reforçar o papel desta estrutura governamental na balança interna de poderes, tendo resultado num forte recuo da influência de Bolton (que, na passada semana, já tinha sido privado de acesso a certa documentação diplomática sensível). Em certos meios americanos, há hoje a convicção de que Trump se sente com uma crescente auto-confiança no terreno internacional, pelo que necessita menos de conceptualizadores (como Bolton) e mais de “implementadores” (como Pompeo).

Semanas antes de Bolton ter entrado para a Casa Branca, tive o ensejo de o ouvir numa conferência em Kiev, na Ucrânia, onde tirei esta fotografia. Ele assumia, na altura, um discurso equívoco sobre a Rússia, que me recordo que não agradou aos ucranianos. Ao ouvi-lo falar daquela maneira, ficou para mim claro que já estava a fazer uma aproximação sedutora a Trump, que então seguia na sua “lua de mel” com Putin, ainda antes de Muller vir a assediá-lo judicialmente. 

Bolton viria a conseguir, de facto, o lugar de McMaster, mas o seu tropismo de “neocon” terá agora sido demasiado para a paciência de Trump.

3 comentários:

Anónimo disse...

"... Trump, contudo, já deu mostras de ser menos belicoso, na prática, ...".
Cuidado Sr. Embaixador, olhe que ainda acaba por ser mal visto, por cá.

Às margens de mim. disse...

É tempo de reflexão.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

Analise muinto certa , Sr Embaixador. Sobre o John Bolton, , " he never seen a war he didn't like".
Ha que lembrar, tambem, que eu e mais 60 milhoes de americanos voltaram pelo Trump par trazer os soldados espalhados por todo o lado.para casa. Bring the boys home, era slogan da campanha.. Do Iraque, Afganistao ,.... Mas as burocracias e interesses das armas fazem tudo para continuar o Status Quo.