quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Os trabalhos de Elisa


Elisa Ferreira recebeu, na Comissão Europeia, uma pasta que, a meu ver, corresponde exatamente àquilo que António Costa desejava para o comissário indicado por Lisboa. 

Tendo ficado evidente, desde há muito, que Mário Centeno não tinha hipóteses de obter uma vice-presidência na área financeira - cenário ideal para Portugal, por razões que creio desnecessário explicar -, o “next best” realista para Costa era, claramente, uma pasta desta natureza.

A visibilidade de António Costa no processo de distribuição dos principais cargos europeus, com um nível de influência que, no passado, nenhum primeiro ministro português havia conseguido atingir (o caso Barroso, em 2004, tem contornos que não se ligam à sua nacionalidade de origem), só não teve consequências mais relevantes porque, ao final do dia, os socialistas europeus tiveram de ceder nas suas ambições, em face da força demonstrada pelos conservadores. 

Ao ter que se vergar perante este imperativo, Costa terá conseguido, no entanto, assegurar a temática central que sempre pretendeu, nesse “plano B”, que ficasse sob a tutela do comissário a indicar por Lisboa. 

Nesse contexto, Pedro Marques era a hipótese óbvia e quase pré-anunciada, mas o imperativo da paridade obrigou a fazer avançar Elisa Ferreira, cuja experiência naquela área técnica é similar à de Marques, mas cujo perfil, político e europeu, é incomparavelmente maior e mais sólido.

Achar que seria plausível, como reclamaram alguns maximalistas de cátedra, ter podido obter uma vice-presidência para Elisa Ferreira é um reflexo de insensatez, de quem não sabe “ler” os equilíbrios - políticos, geográficos e outros - que sempre têm de estar presentes num arranjo final desta natureza.

Alguns perguntarão: a pasta atribuída a Elisa Ferreira é importante para Portugal? 

Não sou minimamente sensível à ideia de que, com os fundos estruturais “na mão” de Elisa Ferreira (embora a sua pasta vá bem para além disso), Portugal possa vir a obter diretas vantagens. Se a comissária indicada por Portugal tivesse a tentação de favorecer o seu país de origem, ”suicidar-se-ia” de imediato no seio da Comissão.

Mas sou muito favorável à ideia de que uma comissária de nacionalidade portuguesa pode ter um papel decisivo na preservação da “política de coesão”, de que os “fundos estruturais” são o instrumento essencial, no eixo das grandes políticas europeias. E isso é de um (imenso) interesse para Portugal.

Reitero, assim, o que escrevi num artigo que publiquei em 28 de agosto:

Uma visão antiga e ingénua é a de que, a um país, interessa que ao comissário que indicou seja atribuída na Comissão uma "pasta" que corresponda especificamente aos seus interesses nacionais mais relevantes. Se essa perspetiva egoísta pode funcionar, às vezes, para os maiores Estados, é uma completa falácia no que toca aos restantes. Pela experiência de observação da vida europeia nas últimas três décadas, um comissário torna-se relevante quando, pela sua qualidade, consegue ganhar poder de influência pessoal no seio do colégio de comissários e a quem, pela horizontalidade do seu pelouro, os outros sejam obrigados a recorrer com frequência.

É esse o desafio - explorar a transversalidade da pasta e ganhar peso no seio da Comissão - que Elisa Ferreira vai ter pela frente.

Conhecendo-a, estou totalmente seguro de que vai levar a cabo a sua tarefa com grande eficácia e com efeitos de forte prestígio para Portugal.

(A imagem que escolhi para ilustrar este texto não é casual. Não “bebo do fino”, não tenho nenhuma informação privilegiada. Limito-me a “espreitar” e interpretar o que vou vendo, à luz do que penso.)

1 comentário:

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Será que podia explicar alguma coisa dos contornos do caso Barroso em 2004...?