sábado, 7 de julho de 2018

Todos a bordo?


Ainda nos recordamos do discurso de Juncker, em 2016, quando anunciou uma espécie de estado de emergência da Europa, fruto das angústias suscitadas pelo Brexit, que se somavam às múltiplas perplexidades que já então atravessavam o projeto integrador. A resposta à tragédia dos refugiados dividiu transversalmente a União, tal como, noutro sentido geográfico, a questão da solidariedade perante a crise financeira o havia já feito. O alerta pessimista, assumido por um otimista profissional como é o presidente da Comissão europeia, foi então bastante forte.

Depois, surgiu do outro lado do Atlântico o choque Trump. Passado o primeiro trauma, a sua mensagem provocatória teve o condão de funcionar como um inesperado fator agregador, tanto mais que, por uma vez, a América não se entreteve apenas a dividir a Europa – coisa que faz, com sucesso, sempre que quer, como “poder europeu” que é. Ela deixou claro ter como deliberado objetivo enfraquecê-la como um todo, enquanto projeto coletivo, económica e estrategicamente concorrente. Isso começou com o anúncio do fim do TTIP e expressou-se, logo depois, nas reticências sobre a NATO, parcialmente revertidas, não obstante a persistência da relação pessoal obscura de Trump com Putin. O vai-e-vem dos principais líderes europeus a Washington, com diferentes coreografias, às vezes caricatas, deixou desde logo claro aquilo com que, nos próximos anos, a Europa podia contar. O que veio depois apenas confirmou as piores previsões.

Lembrar-se-ão também de que, por esses tempos, os cenários caricaturais para o futuro do projeto europeu estavam na moda: maior ou menor integração, núcleos mais ou menos duros de países. Era um “déjà vu” pouco estimulante, prova indireta de que esse projeto atravessava um estádio de auto-interrogação. Era também a confissão de que talvez tivesse chegado ao fim a ambiguidade em matéria de finalidades do modelo que, por décadas, conseguira criar a ilusão de que todos caminhavam alegremente rumo ao mesmo destino. A Europa da “bicicleta de Delors” (se deixamos de pedalar, caímos para o lado) parecia ter colocado finalmente os pés no chão e ter parado para refletir. Mas, como as mais das vezes acontece no errático debate europeu, o dia seguinte levantou logo uma poeira que toldou o sentido desse esforço de reflexão.

Foi então que surgiu no palco político uma surpresa chamada Macron. Fruto evidente de uma conjuntura particular, o novo líder de Paris acarretava consigo a ambição, muito franco-francesa, de querer aproveitar a futura ausência britânica para colocar o seu país bem no centro da liderança do processo. Deixou claros os fatores de reforço integrador que entendia necessários para suportarem o projeto da moeda única, desafiou alguns tabus soberanistas primários e, com naturalidade, procurou Berlim como parceiro motor para esse novo impulso. O “timing”, porém, era o menos adequado, do lado de lá do Reno. Merkel entrava no declínio do seu poder interno, fruto de vários fatores, de que a sua coragem ética e política perante os refugiados não era o menor. Até no seio do seu próprio partido, como se viu nos últimos dias, o peso da Chanceler segue em perda de velocidade. A capacidade alemã para dar alimento, mesmo financeiro, ao motor europeu, sendo essencial, já não pode ser dada por adquirida.

Ora a Europa, depois de ter atravessado, “tant bien que mal”, várias crises cumulativas ou sucessivas, necessitaria precisamente de uma terapia intensa de reforço da vontade comum, quer no plano institucional de preservação do euro – como Centeno recordou na sua recente carta ao Conselho europeu -, quer na adoção de um conjunto de políticas que pudessem traduzir a assunção da vontade comum, que nos habituamos a ver como devendo emanar daquilo a que chamamos uma potência. 

E o que vimos neste Conselho europeu? Um postergar de decisões, avanços semânticos para não perder a face, a clara sujeição a agendas populistas e demagógicas, já sem um pudor político mínimo. Aquela que era para ser uma “cimeira do euro” acabou por se transformar numa manta de retalhos, em matéria de decisões, refém do discurso dos medos, uma cimeira securitária que consagrou surpreendentes recuos. Para utilizar uma imagem destes dias, a Europa acaba de beneficiar o infrator. 

Posso estar enganado, mas sinto que o termo de mandato da presente Comissão europeia, cujo fôlego dá mostras de exaustão, e a circunstância de irmos entrar num período de eleições para o Parlamento Europeu, com dossiês muito complexos, como o saldo do Brexit e as consequências das conflitualidades com os EUA, vai inaugurar um tempo novo e decisivo para o projeto da União. Vamos assistir ao acesso ao futuro parlamento de Estrasburgo de muitos representantes da Europa dos medos e da insegurança, do soberanismo nacionalista, dos prosélitos das políticas securitárias, declamadores de uma narrativa populista, com alguns Estados a garantirem-lhes um suporte institucional no Conselho de Ministros. Mais ainda: a quererem assegurar uma fatia importante de poder na futura Comissão, onde eles sabem que se caldeiam as propostas de mudança de política que são essenciais para o seu objetivo: mudar a Europa e fechá-la ao mundo.

Esta pode – e a meu ver deveria – ser a hora de verdade para os grandes grupos políticos à escala europeia, da democracia-cristã à social democracia, passando agora também pelos liberais, entre os quais, no passado, se processou a grande aliança implícita que permitiu a construção da Europa. Esses grupos, hoje padecendo de uma heterogeneidade que os começa a descaraterizar, necessitariam de reconstruir entre si um novo pacto de valores e princípios, por cima das suas diferenças programáticas. Mesmo que isso tivesse de conduzir à expulsão, do seio dessas famílias políticas, de partidos “irmãos” que hoje envergonham a sua imagem. É que nada há de mais degradante do que esta paz podre instalada nos sorrisos coletivos nas fotografias de família dos Conselhos europeus. Só dignificava alguns dirigentes terem a coragem de afirmar, alto e bom som, que alguns desses parceiros já não integram o barco comum europeu. Separar as águas seria um ato saudável de coragem e dignidade. A próxima campanha eleitoral para o Parlamento europeu seria o momento certo para se definir quem fica a bordo e quem deve escolher outras companhias. 

6 comentários:

Anónimo disse...

WOW
Mesmo como anónimo e por isso mesmo "um cobarde", tenho de reconhecer que em tão pouco tempo não teria tido informações tão concretas sobre a situação na Europa.
Fico-lhe grato.

Anónimo disse...

Bem a bordo veio o explorador Obama a mostrar aos saloios da equidade justiceira.

Gostava de ver os saloios esquerdistas que estão sempre a queixar-se do Soares dos Santos, porque parte dos lucros da Jerónimo Martins são tributados na Holanda, reclamarem, agora, a tributação lusitana dos 500 mil que o Obama cá veio sacar.

É verdade que o pobre homem voltaria para os EUA quase sem nada no bolso, mas sempre era uma questão de equidade fiscal e justiceira

Anónimo disse...

Que esta União Europeia -liderada pela Alemanhã- respira em estertor sabemos, há muito.
Esperar que os que tiraram, e tiram, todas as vantagens de esta situação a modifiquem é, pelo menos, curioso.JS

Luís Lavoura disse...

Mas o drama dos partidos políticos europeus é que não são verdadeiros partidos, não têm ideologia que os unifique.
Os partidos políticos europeus são mais ou menos como em Portugal é o PSD - federações, alianças entre interesses locais ou setoriais.

Anónimo disse...

Fischer para a Comissão

Joaquim de Freitas disse...

“Que esta União Europeia -liderada pela Alemanha respira em estertor sabemos, há muito.
Esperar que os que tiraram, e tiram, todas as vantagens de esta situação a modifiquem é, pelo menos, curioso. JS
7 de julho de 2018 às 18:39 »

De acordo com este meio anónimo JS !

O mundo está mudando, a multiplicação de grandes eventos internacionais mostra que a relação das forças globais tende a modificar-se, a iniciativa muda de campo. O unilateralismo que dominava as relações internacionais encontra insucessos, a situação já não é exactamente a mesma e se os riscos de conflito permanecem as oportunidades crescem.

Seria, portanto, importante para os partidos de se posicionarem devidamente de acordo com essas convulsões às quais contribuem a acção dos povos e dos trabalhadores. É urgente fazê-lo com ousadia e independência, liberando-se do "pronto-a-vestir" do pensamento único, saindo da bolha de certezas que são cada vez mais contrariados pela realidade.

A magnitude da crise de eficiência e legitimidade das receitas neoliberais aplicadas em particular no seio da União Europeia e da UE, tal como no resto do mundo, deveria fomentar esta sensibilização. Isto é para dizer se a necessidade de esclarecimento é decisiva para ajudar a dar confiança em acção e se a responsabilidade do sindicalismo é importante, se é para reivindicar a luta de classes.

Como poderia um partido social-democrata como o PSD, e os seus irmãos ideológicos na Europa, escapar à crise de consciência que os afecta, perante a amplitude da crise de eficácia e de legitimidade das receitas neo liberais aplicadas particularmente no seio da EU e nos EUA, como no resto do mundo?

Quando penso nas palavras de Michel Rocard em 1992: "o euro será menos desemprego e mais prosperidade". Nós sabemos o que é! O fracasso desta previsão é total.

Ontem, no Congresso reunido em Versailles, o monarca Macron confessou, humildemente, o que todos os franceses já sabiam, que “ não poderá fazer tudo o que prometeu” Claro…

Esperava da sua acção impulsionar mais amplamente a França e a Europa para implementar uma verdadeira política industrial que garanta a sua independência económica.
A independência de quem, para quem? Da União Europeia?

Mas é exactamente isso que Merkel e Macron querem e o que o seu acordo político confirma na recente cimeira de Meseberg. Mesmo que esteja longe de ser unânime na Alemanha e noutros sítios, porque não menos de 12 países já se opõem à ideia de um orçamento da área do euro.
Mas Macron , que se vê como o principal arquitecto da integração europeia, insiste que fora destas directrizes: não hà salvação.

Por isso está previsto: para além do orçamento da zona euro, a cooperação reforçada no domínio da defesa, um Conselho de Segurança e o abandono da regra da unanimidade, a luta contra a imigração e o reforço das fronteiras, um seguro de desemprego! Muito bonito…

Mas, tal ambição implica acelerar o processo de integração. Aos olhos de Macron/Merkel a situação está madura!. Quando mais de metade dos países da EU dão coices à direita e à esquerda. E mesmo muitos franceses, que não vêm a França, debaixo da bandeira alemã…mesmo se é verdade, como disse Merckel, que "o guarda-chuva americano acabou” para Europa.

Na realidade, para Macron e Merckel, e afim de salvar a Europa e o capitalismo, é preciso renunciar definitivamente a toda a soberania dos povos e das Nações, aceitar uma submissão absoluta às instituições supra-nacionais da UE, e ao euro.

O objectivo é muito claro, a armadilha é enorme! O casal franco-alemão chama a serrar fileiras atrás deles e Bruxelas, isto é "à União Sagrada”.
Quando vemos o resultado da União Sagrada para atacar a Líbia e a Síria, e o resultado, duvido que seja no nosso interesse .