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segunda-feira, julho 02, 2018

A alegria da pobreza


Não quero ser desmancha prazeres. Mas ver amigos que muito prezo, aos saltos, num palco, a debitarem, aos berros, uma parte desta reacionaríssima letra fez-me sentir algo estranho

Que saudades eu já tinha
da minha alegre casinha
tão modesta como eu.
Como é bom, meu Deus, morar 
assim num primeiro andar 
a contar vindo do céu 
O meu quarto lembra um ninho 
e o seu tecto é tão baixinho 
que eu, ao ir para me deitar, 
abro a porta em tom discreto, 
digo sempre: «Senhor tecto, 
por favor deixe-me entrar.» 
Tudo podem ter os nobres 
ou os ricos de algum dia, 
mas quase sempre o lar dos pobres 
tem mais alegria. 
De manhã salto da cama 
e ao som dos pregões de Alfama 
trato de me levantar, 
porque o sol, meu namorado, 
rompe as frestas no telhado 
e a sorrir vem-me acordar. 
Corro então toda ladina 
na casa pequenina, 
bem dizendo, eu sou cristão, 
“deitar cedo e cedo erguer 
dá saude e faz crescer” 
diz o povo e tem razão. 

Eu sei que era uma homenagem a Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, mas isso não invalida que quem canta um texto saiba o que está efetivamente a cantar. Ou será que, um destes dias, ainda poderemos voltar a ver as três principais figuras do Estado, divertidas, a zurzir os nossos ouvidos com uma versão rock desta outra peça do miserabilismo lusitano mais retrógado?

Numa casa portuguesa fica bem
Pão e vinho sobre a mesa
E se à porta humildemente bate alguém,
Senta-se à mesa com a gente. 
Fica bem essa franqueza, fica bem,
Que o povo nunca desmente
A alegria da pobreza
Está nesta grande riqueza 
De dar, e ficar contente 
Quatro paredes caiadas,
Um cheirinho à alecrim,
Um cacho de uvas doiradas,
Duas rosas num jardim, 
Um São José de azulejo 
Mais o sol da primavera, 
Uma promessa de beijos 
Dois braços à minha espera 
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar,
Há fartura de carinho
A cortina da janela e o luar,
Mais o sol que bate nela 
Basta pouco, poucochinho pra alegrar 
Uma existência singela 
É só amor, pão e vinho 
E um caldo verde, verdinho 
A fumegar na tijela 

Não tem importância nenhuma? É apenas uma memória da tradição, que nada tem de ideológico? Ai não? Então, e se acaso a um destes modernaços intérpretes lhe desse na veneta de fazer um rap de outra peça? Será que essas mesmas figuras (e os seus "compagnons" de palco) aceitariam debitar estas estrofes?

Lá vamos, cantando e rindo

Levados, levados, sim
Pela voz de som tremendo
Das tubas, clamor sem fim.
Lá vamos, que o sonho é lindo!
Torres e torres erguendo.
Rasgões, clareiras, abrindo!
Alva da Luz imortal,
Roxas névoas despedaça
Doira o céu de Portugal!
Querer! Querer! E lá vamos!
Tronco em flor, estende os ramos
À Mocidade que passa.
Cale-se a voz que, turbada,
De si mesma se espanta,
Cesse dos ventos a insânia,
Ante a clara madrugada,
Em nossas almas nascida.
E, por nós, oh! Lusitânia,
Corpo de Amor, terra santa, 
Pátria! Serás celebrada,
E por nós serás erguida,
Erguida ao alto da Vida!
Querer é a nossa divisa.
Querer, palavra que vem
Das mais profundas raízes.
Deslumbra a sombra indecisa
Transcende as nuvens de além...
Querer, palavra da Graça
Grito das almas felizes
Querer! Querer! E lá vamos
Tronco em flor estende os ramos
À Mocidade que passa.


Um pouco mais de atenção àquilo que se diz era capaz de não ser uma má política. Digo eu...

Entrevista ao "Público" e à Rádio Renascença

  Ver aqui:  https://vimeo.com/1159303777  ou aqui  https://rr.pt/noticia/amp/hora-da-verdade/2026/01/29/seixas-da-costa-portugal-teve-posic...