segunda-feira, 2 de julho de 2018

José Batista de Matos


Morreu o Batista de Matos, acabo de saber! Morreu um português com um grande coração, um homem para quem o 25 de abril era o marco central da vida. Morreu-me um amigo.

Poucos meses depois de chegar a Paris, fui convidado por Manuel Rei Vilar, então diretor da Casa de Portugal, para fazer, com os outros embaixadores portugueses na cidade - Eduardo Ferro Rodrigues, na OCDE, e Manuel Maria Carrilho, na Unesco - um debate sobre o 25 de abril. Antes do início da sessão, alguém me alertou: “Cuidado! Está ali um tal Batista de Matos. É um radical e vai incendiar o debate!”. Não me preocupei minimamente, mas avisei os meus colegas de mesa. Na altura das perguntas, o Batista de Matos, o tal “radical”, que só então conheci, fez uma longa e inflamada intervenção. Um de nós respondeu-lhe e, a partir daí, ele percebeu que tinha à sua frente pessoas que tinham ao 25 de abril uma dedicação que pedia meças à sua.

Não sei se foi então ou no ano seguinte que Eduardo Ferro Rodrigues e eu estivemos presentes, pela primeira vez, na festa noturna com que, sob a batuta organizativa de Batista de Matos, se comemorava o 25 de abril em Fontenay-sous-Bois, nos arredores de Paris. Uma fantástica e alegre marcha luso-francesa, com bombos e archotes, que terminava num monumento à Revolução portuguesa, onde eram ditas umas palavras, com algumas autoridades locais à mistura. Uma comemoração muito sã, com crianças e cravos vermelhos, nada ideológica e apenas simbólica do momento de libertação e dignidade que o 25 de abril representou para os nossos compatriotas que então viviam em França. Batista de Matos era o grande e bem disposto mestre dessas informais cerimónias.

Batista de Matos era também um orgulhoso homem da Batalha e animava um grupo que coordenava a presença dos originários daquele concelho nos países da diáspora. Na “Cité Nationale de l’Histoire de l’lmigration” existe uma vitrine dedicada exclusivamente a José Batista de Matos, com fotos e objetos da sua aventura exemplar como imigrante em França. Condecorámo-lo um dia como amplamente merecia, tendo sido feito Comendador. Correspondemo-nos nos últimos anos e tenho um seu último postal de Natal, creio que do ano passado. Penitencio-me por nunca ter conseguido cumprir a promessa de o visitar na Batalha, para onde me convidou várias vezes a ir almoçar, com o meu antecessor e também seu amigo, António Monteiro. Vou ter saudades daquele seu sorriso, quase traquina, do seu abraço generoso, da sua bonomia e, claro, do seu inultrapassável amor à Revolução de abril. 

Que raio! Estão a partir os bons!

1 comentário:

Albertino Ferreira disse...

Conheci o Batista de Matos enquanto Cônsul em Nogent-sur-Marne tendo estabelecido com ele cordiais relações e apoiado sempre as iniciativas da sua associação de Fontenay.