Em casa do meu avô materno, no topo de um estante, havia um livro cujo título sempre me intrigou, mas que essa curiosidade, ainda de infância, nunca me levou a ler. Era o "Vinte e quatro horas na vida de uma mulher", de Stefan Zweig.
Há pouco, ao ver anunciada a demissão de Ricardo Robles, o vereador do Bloco de Esquerda na Câmara de Lisboa, lembrei-me de Catarina Martins, líder do partido. E das suas últimas 24 horas. E pensei em como apenas um dia e um imenso erro podem ter consequências devastadoras.
Não vou aqui repetir, sobre o episódio imobiliário de Robles, o básico: o cidadão Ricardo Robles tinha todo o direito de fazer o que fez, o militante do BE Ricardo Robles estava moralmente impedido de tentar o negócio, depois do que tem dito sobre a especulação imobiliária em Lisboa. Por isso agora se demitiu.
Mas estas 24 horas, na vida de uma mulher chamada Catarina Martins, acabam por ser um tempo imenso. Ela devia ter cortado cerce o problema, mal se conheceram os factos, retirando de imediato a confiança ao vereador. Ora, ao vir a terreiro apoiar Robles, com os argumentos algo arrogantes que utilizou, a poucas horas dele próprio perceber que tinha de se demitir, acabou por piorar tudo, agravando, por falta de sentido e de "timing" políticos, uma das maiores crises que o BE atravessou desde a sua criação. O partido vai ter agora de lamber as feridas, esperando que o dia de amanhã obscureça a memória dos seus potenciais votantes, que, por estas horas, exibem um penoso embaraço. Uma coisa é certa: o Bloco vai pagar um preço, à esquerda.
É que Catarina Martins deve preocupar-se, e só, com os impactos à esquerda daquilo que se passou. Mas, se quer um conselho, deve "estar-se borrifando" para a turba da direita que lhe caiu em cima, para a "autoridade" moral de quem acha que tem, por herança genético-social, aquilo que poderíamos designar como o "monopólio do usufruto do bago" e há muito se arroga o direito de ser uma espécie de juíz de coerência do outro lado da barricada.
Vemos agora a direita aproveitar o balanço e contestar uma alegada "superioridade moral" da esquerda. De facto, concordo que invocar isso não passa de uma palermice sem sentido, sendo que é, no entanto, um tema muito antigo, que surge à baila de quando em vez. Mas talvez valesse a pena interrogarmo-nos: por que será que nunca se ouviu, por uma vez que fosse, alguém ousar defender a existência de uma "superioridade moral" da direita? Talvez não seja por acaso...