sexta-feira, 20 de julho de 2018

O papel de D. Zulmira



As minhas primeiras aquisições, na Vila Real da minha infância, foram as revistas, no Albertino dos jornais, vizinho de rua. Todas as semanas, ali ansiava pela chegada do “Cavaleiro Andante” e do “Mundo de Aventuras”. 

Ao longo da vida, as lojas de jornais, tal como as livrarias, exerceram sobre mim uma atração única. Sempre me conheci como um consumidor compulsivo de coisas em papel. Compro imensamente mais do que aquilo que consigo ler, atulho-me (o verbo é forte, mas verdadeiro) de publicações que me seguem, atrasadas na leitura, em sacos de plástico, nas viagens, sobrevivendo, por semanas, até ao dia em que discretos “autos-de-fé” familiares fazem desaparecer essas pilhas de papelada, as quais, como sou avisado quando protesto, já estariam “a criar bicho”. (Há tempos, encontrei uma pasta com recortes “para ler”: tinha artigos do “Diário de Lisboa” e do “Jornal do Fundão”, do início dos anos 70...)

Vem isto a propósito da D. Zulmira, que gere uma loja perto de minha casa e que acaba de nos anunciar que, no final deste mês, vai fechar o seu negócio: venda de jornais e revistas. Ora o papel, por muito que o não queiramos aceitar, está pela hora da morte. Eu próprio, viciado nas folhas e no cheiro da impressão, ando cada vez mais pelo “online”. Embora reconheça que uma das coisas boas e simples da vida é estacionar, com um jornal e uma bica, numa esplanada de Verão, a verdade é que até este excelente JN é por mim quase sempre lido, pela manhã, no écran do iPad em que agora dedilho este artigo.

Parte do admirável mundo velho do papel, que era o mundo da D. Zulmira, está a acabar. O bairro está cada vez mais cheio de velhos, não se vê um jovem com um jornal ou uma revista na mão e os novos vizinhos, que agora nos enchem os passeios de “bonjour” e “au revoir”, não devem ser grandes clientes. Vou sentir a falta de uma leitora dos meus artigos, porque, como acontece com alguns livreiros, a D. Zulmira era muito atenta ao que vendia. Sem surpresas, a nossa última conversa foi sobre o Trump.

As coisas são mesmo assim e a D. Zulmira - cujo nome, como um dia lhe ensinei, significa sublime e brilhante – também vai ter de se adaptar. E como não vale a pena chorar sobre o leite derramado, talvez valha então a pena, afinal, aproveitar para celebrar esta nova fase da sua vida com um bom vinho. Um destes dias, prometo! vou-lhe oferecer um magnífico verde branco, cruzamento de arinto e loureiro, que acabo de conhecer. A senhora vai gostar. O vinho chama-se Zulmira!

6 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

Por mais que use a blogosfera e quejandos não dispenso o papel. E tenho a certeza de que nunca o dispensarei. Ponto.

Um abração deste teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

E viva o Sintra, com C!!!!

A Nossa Travessa disse...

INFORMAÇÃO
Tal como tinha anunciado acabo de publicar mais um episódio, o oitavo, da saga É DIFÍCIL VIVER COM UM IRMÃO MONGOLÓIDE que desta feita tem como título... "Empernanço de pestana"... Com este texto a acção entra de raspão na guerra colonial e ainda na ida do primeiro homem à Lua. Uma vez mais alerto para imagem que pode impressionar as/os mais sensíveis.


Volto depois para comentar outros temas.


Luís Lavoura disse...

Coitada da Dona Zulmira, perde o emprego de vendedora de jornais e, para a consolar, mas mais parece que para gozar com ela, o Francisco oferece-lhe uma garrafa de vinho! O Francisco o que devia era oferecer-lhe um emprego alternativo! Repare o Francisco que, com o seu uso de ler o JN no Ipad, em vez de comprar o JN em papel à Dona Zulmira, é corresponsável pelo desemprego dela!

Joaquim de Freitas disse...

Poétique et nostalgique, à souhait...

Anónimo disse...

Com o preço que os jornais e as revistas têm é lógico que tinham de acabar.
E se o "online" também se puser a pedir valores incomportáveis, leitores pagantes, também não vai ter.

aamgvieira disse...

Curiosidades ....sobre a desgraça a que chegámos.


Uma breve história do Portugal recente

por André Abrantes Amaral

"Uma breve história do Portugal recente"

Nos tempos de José Sócrates dizia-se que o país precisava de mais investimento público para a economia crescer. Em consequência, o Estado só não faliu devido à ajuda internacional. Nessa altura já não se falava de investimento público; a “espiral recessiva” era a expressão da moda. Dizia-se que as políticas seguidas por Passos Coelho conduziriam Portugal a uma recessão cada vez mais profunda. Que sem o investimento público, que tinha conduzido o Estado português à quase falência, o país se afundaria sem salvação possível.

Entretanto, as reformas do governo PSD/CDS lá foram dando frutos; o crescimento económico, que já estava estagnado, regressou, o desemprego baixou e a dívida pública, face ao PIB, desceu. Nesse momento preciso e único da história do Portugal recente, a esquerda portuguesa não teve discurso. Por isso, perdeu as eleições de 2015.

Foi então que a esquerda dona disto tudo reagiu.

Tinha de o fazer.

Se o governo PSD/CDS continuasse, a direita colheria os frutos do seu trabalho, as reformas (parcas, é certo, mas reformas) mostrar-se-iam correctas e o país exigiria mais. A continuação do governo PSD/CDS em 2015 ditaria o fim do monopólio ideológico que a esquerda impôs a Portugal, com os resultados conhecidos.

Seria o fim da narrativa dominante. Algo impensável, inimaginável e não possível para pessoas como António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins.

Perante esta eventualidade, esta esquerda uniu-se e aprovou um governo de um partido em quem os portugueses não votaram. Para não se comprometerem em demasia, BE e PCP decidiram protestar, em voz alta e zangada, nos encontros que tinham com os seus militantes, enquanto votavam favorável e silenciosamente, no Parlamento, as políticas do PS. O Governo de Costa lá se aguentou com o crescimento da economia advindo das reformas do governo de direita e do milagre económico europeu sustentado pelo BCE e o cada vez maior endividamento dos EUA.

Mas nada dura sempre. Os efeitos do que foi feito entre 2011 e 2015 acabam. A fórmula do BCE, porque não estrutural mas provisória, um dia termina. O balão de oxigénio que foi a retoma destes três últimos anos esvazia-se. A 12 de Julho último, a UE reviu em baixa o crescimento europeu e alertou para “riscos significativos” para a nossa economia. A dívida pública portuguesa atingiu novo recorde em Maio, apesar do crescimento de que todos se orgulham. Há dez anos não havia dinheiro para investimento público; há cinco nem para isso nem para pagar salários; agora já nem sequer para contratar enfermeiros. Não se aprendeu nada e, por isso mesmo, esta breve história do Portugal recente continuará igual a ela própria."