sexta-feira, 13 de julho de 2018

Ai Brasil !


Há dias, em escassas horas, o Brasil assistiu – e eu, que estava por lá, também - a um debate extremado de natureza político-jurídica, envolvendo, uma vez mais, Lula da Silva. Um juiz de turno, numa instância que, horas depois, viria a ser declarada incompetente para tal, tomou a polémica decisão de mandar soltar o antigo presidente. No emaranhado quase incompreensível que hoje constitui o processo judicial brasileiro, sucederam-se ordens e contra-ordens. As televisões encheram-se de especialistas (como por cá também houve, ao que me disseram, sobre caves tailandesas). Os atores políticos, chamados a pronunciar-se, reagiram da forma expectável, algumas vezes com a ambiguidade de um discurso tático, atentas as eleições que se aproximam. E, sem surpresa, Lula continuou na prisão, onde, aliás, rapidamente teria regressado, se acaso tivesse sido solto.

Os amigos de Lula, que entendem que a sua condenação e posterior prisão não passaram de uma orquestrada fraude judicial com objetivos políticos, exultaram, entretanto, com a possibilidade momentaneamente aberta pelo complacente juiz. Os seus detratores, ao invés, crismaram o agente da justiça de todo arsenal de epítetos injuriosos e, naturalmente, rejubilaram com o desfecho frustrado do episódio. 

Nada disto parece hoje estranho, num Brasil que vive um tenso ano político, com eleições no segundo semestre, com um presidente completamente desacreditado, um governo errático que parece seguir um “script” desligado do mundo real, com as mãos atadas por um Congresso (Senado e Câmara de deputados) onde se “costuram alianças” e se fazem “articulações” que espelham já todas as ambições dos proto-candidatos. O sistema político mostra-se incapaz de uma auto-regeneração, vivendo sob uma patente desconfiança dos cidadãos, que olham com desprezo a continuação dos jogos de distribuição de lugares e verbas orçamentais, imagem de marca da velha e relha política. A máquina judicial, onde, desde há uns anos, passaram a repousar (e ainda repousam) muitas esperanças, surge cada vez mais acusada de instrumentalização, ao serviço das agendas políticas. E nela, cada cidadão brasileiro já elegeu os “bons” e os “maus”.

Neste maniqueismo obsessivo, o Brasil de hoje pensa com o coração e o “nós ou eles” converteu-se na regra de um jogo muito perigoso. Sabe-se como um contexto instalado de desencanto pode ser pasto fácil para populismos. Por mim, não gostaria de ver o Brasil regressar à América Latina, se bem me faço entender.

4 comentários:

Anónimo disse...

Que falta está fazendo para o Brasil a MONARQUIA!!!!
https://www.youtube.com/watch?v=6OM20Kd0N2o

Anónimo disse...

É curioso como recentemente que os políticos de certos partidos que antes tinham camaradas agora lhes chamam "amigos".
Isto que se passa no Brasil só pode espantar quem não tem olhos de ver como deve ser.

Entre "amigos" as coisas são sempre diferentes.

Joaquim de Freitas disse...

Não há nenhuma surpresa. O Brasil tornou-se exactamente no que os defensores do impeachment da presidenta Dilma queriam. Interessava apenas em afastar o PT a qualquer preço, mesmo inventando pedaladas fiscais.

Lembram desse terrível crime contra as instituições brasileiras? Parabéns a todos os que gritaram nas ruas a favor do golpe contra a presidenta legitimamente eleita, o Brasil agora não tem mais pedaladas fiscais. O que eram mesmo as pedaladas fiscais?

Pois, para quem foi para as ruas, o importante era tirar o PT do governo. Dar um golpe numa presidenta legitimamente eleita, que sofreu todo tipo de agressões como cidadã, como política, como mulher.

Os que transformaram a política num amontoado de palavrões e usavam nas ruas a camiseta da instituição que hoje tem seus os dirigentes procurados internacionalmente como corruptos têm agora o país desejado!

O Brasil de Cabral, em 1500 era menos corrupto.

Reaça disse...

América Latina pode ser exactamente o populismo actual de um Lula e opositores, uma venezuela com este populista que lá está e opositores, como foi Peron, Evita, Isabelita e opositores e assim por diante.

A América Latina está semelhante a África.

Escaparam apenas Africa do Sul de um lado e Argentina e Chile do outro.

Estava a ficar uma maravilha este Brasil...era só mais meia dúzia de anos de ditadura em 1979... mas os militares cansaram-se cedo de mais.

Que pena!