domingo, 22 de julho de 2018

Espanha - a direita vira à direita


O PP espanhol deu uma forte guinada à direita com a escolha de Pablo Casado como sucessor de Mariano Rajoy. Os “populares” foram sempre um partido bastante conservador, onde alguma herança de raiz franquista se sentiu frequentemente confortável. Aznar cultivou bastante esse discurso, mas Rajoy, não obstante ter feito uma gestão que soou a dura na questão catalã, ter-se-á assustado com a subida do Cuidadanos e descuidou a questão da identidade ideológica do PP. Em especial, alienou-se dos setores mais católicos, ao que se diz. O modo como foi afastado de Moncloa acabou por ser quase humilhante e isso foi mortal para as ambições da sua putativa sucessora. Os votantes populares não quiseram mais do mesmo e, com o recuo do galego Feijóo, deram espaço a Casado, como representante de uma nova geração e titular de um discurso diferente e motivador. Vale a pena, aliás, notar a renovação etária profunda que está a varrer as lideranças partidárias espanholas, ao contrário deste lado da península.

Com a escolha de Casado para titular a direita, numa nova linha influenciada por algum extremismo liberal e pelo grupo hiper-conservador Hazte oír, este focado na temática da família e da vida, o PP pode vir a procurar voltar a cavalgar, para além de um discurso ideológico muito mais conservador, o sentimento nacionalista, de raiz centralista e muito castelhana, que esteve muito presente na forte reação ao desafio catalão. As dúbias atitudes de Pedro Sánchez face a algum separatismo (que, lembremos, o terão ajudado a chegar a Moncloa) vão, com toda a certeza, estar na primeira linha da contestação de Casado ao governo socialista. E a Catalunha pode regressar rapidamente à boca da cena do debate político em Madrid. Interessante também vai ser observar se o radicalismo conservador deste novo PP se vai ou não alargar a um discurso populista, anti-imigrantes e refugiados, a que Espanha tem escapado nos últimos anos. (Pir cá, também, embora, no CDS, pela voz de Nuno Melo, tenha agora emergido essa perigosa deriva, na tentação de explorar um nicho de medos).

Resta saber se Albert Rivera, lider do Ciudadanos, cujo prazo de “novidade” política se está visivelmente a esgotar, a exemplo de Arrimadas em Barcelona, mas a quem as sondagens continuam a confortar, conseguirá vir a aproveitar esta radicalização do PP. É que se a isso somarmos a aparente evolução do PSOE que, no governo, surge com uma agenda vista por muitos como visivelmente colada à esquerda, aparentemente para tentar travar um Podemos que atravessou uma debilitante crise interna recente, Rivera pode ter agora melhores condições para “federar” a direita mais moderada (historicamente, em Espanha, o eleitorado que vota PP esteve sempre menos à direita que o próprio partido) e um centro que pode estar a ficar chocado com o que vê ocorrer à sua esquerda, isto é, no governo.

A vida política espanhola promete...

6 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

Quando era correspondente de vários órgãos da Comunicação espanhola (vê lá tu que até da RTVE fui, Mi castellano fue suficiente para remplazar a Ramón Font cuando el tío salió un mes de vacaciones…) Fiz uma crónica como tinha sido seguida em Lisboa a queda de Felipe González e as hipóteses de Aznar. Agora estou fora das lides... embora tente seguir que se passa em Espanha e espero bem que a Ibarruti não tenha razão com o seu No pasa nada!...

Um abração do teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão (E o Bas Dost já cá está! Boa malha!)

Anónimo disse...

Como de costume, nem uma referenciazinha às sucessivas derrotas espanholas na Justiça, no que toca à questão catalã.

Luís Lavoura disse...

numa nova linha influenciada por algum extremismo liberal e pelo grupo hiper-conservador Hazte oír

Então o homem é influenciado pelo liberalismo ou pelo conservadorismo? É que, trata-se de coisas radicalmente diferentes...

Luís Lavoura disse...

Albert Rivera, cujo prazo de “novidade” política se está visivelmente a esgotar, mas a quem as sondagens continuam a confortar

Então as songagens continuam a confortá-lo mas está-se a esgotar? Não entendo. Se as sondagens continuam boas, qual o motivo de preocupação?

Francisco Seixas da Costa disse...

O Luis Lavoura já nasceu assim ou a vesícula estragou-se com o tempo?

eduardo disse...

Casado: «No es posible que haya papeles para todos los inmigrantes»

ja da para ver onde este falangista encapotado quer chegar