quinta-feira, 19 de julho de 2018

A SONAE e as empresas familiares

O grupo Sonae anunciou mudanças importantes na sua liderança. Uma filha do fundador, que há pouco desapareceu, vai agora assumir a chefia executiva. Isso acontece, curiosamente, poucos meses de depois de um outro grupo nortenho com forte presença familiar, o grupo Amorim, ter consagrado o papel proeminente da filha do seu também falecido fundador. 

Por razões de envolvimento profissional direto, tenho vindo a atentar de perto, nos últimos anos, para a especificidade das empresas de base familiar. À primeira vista, as questões que se colocam a esses grupos não serão muito diferentes das de outras grandes empresas - e também conheço alguma coisa dessa outra realidade. Mas, de facto, não é assim. Há um conjunto de dimensões muito particulares que são próprias das entidades de base familiar, em matéria de desafios de gestão, o que, aliás, justifica, desde há muito, a existência, em algumas universidades internacionais, de modelos de estudo dessa complexa realidade, que também já deu origem a variada literatura especializada. Precisamente porque cada caso é um caso, os grupos familiares somam às questões tradicionais de “governance” e de gestão a necessidade de refletir a especificidade da composição familiar nesse mesmo processo. E é muito evidente que o sucesso dos grupos depende bastante da sabedoria de muitas das decisões tomadas no quadro dos equilíbrios da família detentora do capital.

Algumas das atuais grandes empresas portuguesas têm uma base familiar. Há dias, li uma biografia de José Manuel de Melo através da qual é traçado o retrato de um grupo de base familiar que, como alguns outros, atravessou complexos tempos da nossa história contemporânea. Outros surgiram, em décadas mais recentes, e constituem hoje uma parte muito importante do tecido económico nacional, que o mesmo é dizer do emprego e da criação da riqueza.

Ao iniciar a escrita deste post, aqui nas redes sociais, dei comigo a pensar que este seria talvez o lugar mais inadequado para deixar uma nota serena sobre a realidade específica que procurei destacar. Ao mesmo tempo, achei que seria um bom teste: veremos como se comporta alguma pulsão para o radicalismo e para a demagogia, para a expressão da inveja e para o insulto fácil, para a personalização diabolizada, que a simples menção dos grandes grupos económicos, e das personalidades que os titulam, regularmente convocam.

6 comentários:

Anónimo disse...

As empresas familiares são um "saco".
Tal como em qualquer família todos querem sempre mais e mais.
Todos pensam que podem administrar os bens melhor do que os outros e as intrigas voam a uma velocidade astronómica a respeito de tudo e todos.
Estas empresas são uma possibilidade de se estudar a má formação social deste país onde não há rei nem roque. Já antes de 1975 era assim e continua a sê-lo.

Luís Lavoura disse...

As empresas de base familiar são muito normais na Europa. Nos EUA, não. Nos EUA, quando um empresário se farta de o ser, põe a empresa no mercado de ações, que é como quem diz, vende-a aos acionistas. Na Europa, pelo contrário, há este costume de legar a empresa aos filhos.
Porém, um problema das empresas familiares é que por vezes não há entre os filhos quem tenha verdadeiro jeito para o negócio.

Anónimo disse...

ha uns videos online onde o emmanuel todd reflecte sobre o assunto

Anónimo disse...

Sai Freitas ao caminho!

Ana Vasconcelos disse...

As empresas familiares têm, de facto, uma dinâmica muito própria e, como refere, existe uma extensa literatura sobre o assunto na área da gestão. É muitas vezes interessante verificar como a história da empresa se cruza com a história de vida do empresário fundador e dos seus sucessores. Em muitas empresas familiares há uma visão a longo prazo e decisões que têm a ver com essa perspectiva que são geridas de forma um pouco diferente em relação a outras empresas. Muitas vezes geram emprego intergeracional e há um conjunto de pessoas nos seu quadros que crescem com a empresa e desenvolvem um entendimento comum tácito sobre o modus operandi da empresa.

Joaquim de Freitas disse...

Segundo o que li, em Portugal, as empresas familiares constituem 75% do panorama empresarial. E quando se sabe que representam também mais de metade dos postos de trabalho e, creio, mais ou menos a metade do PIB, são dados importantes. Mesmo se na Espanha e na Itália, com 80%¨e 90%, a situação é ainda mais impressionante.

O que escreve sobre as novas gerações que , cada vez mais, tomam o comando dessas empresas, sem duvida nenhuma que isso implica uma qualificação adaptada nos diferentes sectores da empresa, para os homens como para as mulheres.

Em França, os maiores grupos industriais têm bases familiares: Dassault, Michelin, Auchan, LVMH, e tantos outros.

Peugeot também, mas foram os capitais Chineses que a salvaram recentemente.

Os lucros das empresas aumentaram duma maneira extraordinária, mas a politica social não acompanhou o enriquecimento brutal dos capitalistas. Esquecendo que as empresas têm um papel social transformador na atitude dos indivíduos.

Da mesma forma, a consciência sobre a degradação ambiental e os recursos disponíveis para o aumento do bem-estar também deveriam estar incluídos entre as questões a serem disseminadas nas empresas e pelas empresas à sociedade.

Acho, Senhor Embaixador, que a responsabilidade social das empresas extrapola a mera filantropia aleatória e deve incorporar como complemento a criação e a ampliação do capital social da nação.

Não é questão de sindicalismo, mas a consciência da necessidade de integração das práticas de responsabilidade social com a busca do desenvolvimento sustentável deve ser disseminada como instrumento imprescindível para a maior inclusão de empresas no processo de mudanças socioeconómicas prementes do país, para a consecução destes objectivos de sustentabilidade.

O caminho parece-me longo quando vejo as lacunas existentes.