Via-os passar sob a minha janela, a quase obscenas horas matinais, em passo de corrida, através dos trilhos pedestres, entre arvoredos, de calções ou fatos de treino. Ou então de bicicleta, nas manhãs do sol que ia havendo ou sob nuvens cinzentas, com o frio a cortar a cara.
Eram os meus primeiros tempos de vida na Noruega e, a espaços, ia sentindo alguma pena (embora nunca inveja) de não ser como eles, de não ter esse espírito desportivo, ativo, de sair correndo pelos campos, lutando para perder peso e ganhar o cansaço saudável que a atividade implica. Depois, com os dias também a correr, essa fugaz tentação passou-me e, refastelado num sofá, fui-me acomodando a ser como sempre fui.
Há minutos, aqui, também numa capital do norte da Europa, ao abrir as cortinas da janela do quarto do meu hotel, lá estava o parque, com elas e eles, saudáveis e vigorosos, sob este estranho calor que nos falta aí em baixo, correndo, correndo, correndo.
Olhei-os com idêntica admiração, mas já sem qualquer pena (ou será resignação?). E fui à porta do quarto, receber o pequeno almoço, com o New York Times ao lado. O comodismo militante, aprendi, é uma das mais belas doutrinas de vida, deixemo-nos de histórias.
E agora, desculpem lá!, vou trabalhar, porque todos os vícios têm um preço.
E agora, desculpem lá!, vou trabalhar, porque todos os vícios têm um preço.