Semanas antes, Mário Soares tinha regressado a Portugal, por decisão de Caetano, que pôs fim à sua deportação em S. Tomé, por cerca de um ano, determinada por Salazar.
Soares quis testar, bem cedo, a genuinidade da "primavera marcelista", organizando, na Sociedade Nacional de Belas-Artes, uma sessão "de esclarecimento", como então se dizia muito. Pelo boca-a-boca de certa Lisboa, o evento chegou-me aos ouvidos e fui lá, movido pela curiosidade de conhecer a figura de quem então bastante se falava.
À hora marcada, algumas dezenas de pessoas, tinham-se juntado à porta da Sociedade. Vi Soares chegar, com um pequeno grupo. Constatou que o edifício, ao contrário do previsto, estava fechado. Minutos depois, surgiu o capitão Maltez, da polícia "de choque". À frente de todos nós, entrou num diálogo seco com Mário Soares. Maltez ter-lhe-á dito que, "por ordem do senhor ministro", a sessão não poderia ter lugar. Recordo bem a interpelação jocosa de Soares: "Que ministro é que deu essa ordem? O da Agricultura?"
A tensão começou a subir e, como era de regra, ouviram-se palavras de ordem desagradáveis para o regime. Maltez mandou então avançar a polícia, que nos "varreu", rua abaixo. Um grande jarrão, à entrada de um vizinho restaurante chinês, atrás do qual me refugiei com uma amiga, ia sendo vítima colateral da subsequente fuga dos circunstantes.
Eu tinha acabado de conhecer Mário Soares e a sua coragem.
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Testemunho prestado ao "Diário de Notícias", num conjunto de 34 convidados, sob o lema comum "O dia em que conheci Mário Soares", da data dos 99 anos do seu nascimento. Não conhecia a fotografia inserida pelo jornal, que reproduzo, obtida em outubro de 2002, durante o lançamento de um livro meu, que Mário Soares prefaciou.
