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sexta-feira, dezembro 08, 2023

Falando de cunhas, ou quase

A meio da conversa telefónica, percebi que ia desiludir a pessoa que, do outro lado, me fazia o pedido.

Uma antiga colega de liceu, que eu já não via há muito, abordara uma pessoa da minha família, em Vila Real, pedindo a minha intervenção para facilitar a entrada da sua filha para um lugar técnico no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Havia um concurso para sete lugares, com 10 candidatos. Entendia-se que uma "palavra" minha, então ocupando um cargo de secretário de Estado, seria decisiva para a seleção da rapariga.

Recusei. Por regra, não aceito cunhas e, por maioria de razão neste caso, havendo um concurso, estar a beneficiar deliberadamente um candidato significaria estar a introduzir um fator de injusta desigualização entre os concorrentes.

A pessoa através da qual o pedido era feito conhecia muito bem esta minha posição de princípio, mas havia tentado "deitar o barro à parede". A conversa acabou, como não podia deixar de ser, com a resignação desapontada da pessoa minha interlocutora. Assunto encerrado.

Passaram umas semanas. Nova chamada telefónica. O assunto era o mesmo. A minha primeira reação foi de moderada irritação, por estar a voltar a uma questão que eu considerava fechada.

Erro meu. A pessoa não vinha reeditar a cunha. Pretendia apenas, sabendo-se que a decisão do juri já tinha sido tomada, mas ainda não tinha sido divulgada, inquirir se a candidata tinha ou não sido admitida, para, em caso negativo, poder aceitar um outro emprego, que entretanto lhe aparecera. Só isso.

Pareceu-me razoável tentar obter, por antecipação, essa informação. A minha diligência em nada influiria na decisão já tomada pelo juri, fosse ela qual fosse. Telefonei assim ao presidente do juri, pessoa que conhecia, e perguntei-lhe se me podia dizer se "fulana" tinha ou não sido admitida naquele concurso.

Estranhei que a resposta se iniciasse com uma pergunta: "Mas você estava interessado na admissão dessa candidata?". Respondi que essa não era a questão, que apenas queria saber se ela fora admitida ou não, nada mais. O que veio a seguir, da parte do meu interlocutor, deixou-me marcado para a vida: "Não, não entrou. Mas posso dizer-lhe que esteve quase a ser admitida. Só que, curiosamente, de todos os concorrentes, ela era a única que não tinha nenhuma cunha"...

Empenho a minha palavra em como esta história, com mais de 25 anos, é verdadeira.

Neste tempo em que por aí se fala tanto de cunhas, apeteceu-me contá-la.

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