terça-feira, dezembro 05, 2023

Quem tem amigos assim...


Luís Filipe Castro Mendes escreve hoje isto na sua coluna semanal no "Diário de Notícias". 

CARTA ABERTA A UM AMIGO QUE ESCREVE DE HISTÓRIAS E MEMÓRIAS 

Caro Francisco:

Optei por escrever-te uma carta aberta a propósito do teu livro de memórias e histórias Antes Que Me Esqueça. É que não é fácil falar do livro de um amigo, com quem partilho a mesma condição diplomática e muitas experiências de vida. E pior ainda se é para dizer bem...

O grande achado deste volumoso livro de memórias e o que torna a sua leitura mais aliciante e envolvente é a opção escolhida de não agrupar os momentos evocados numa ordem cronológica ou temática, antes deixar fluir livremente as recordações e as análises e fazer de nós, leitores, atentos ouvintes de histórias inúmeras e fascinantes, como o sultão das Mil e Uma Noites a ouvir os contos de Xerazade. E sem o nosso autor ter de sofrer a angústia de Xerazade...

Lawrence Durrell, no seu Antrobus (Cenas da Vida Diplomática) deu-nos uma visão cheia de humor e malícia da vida dos diplomatas. Em Francisco Seixas da Costa encontramos o mesmo sentido de humor e o mesmo divertimento, mas sempre aliados a uma sólida e estruturada visão da nossa política externa e do estado de um mundo que mudou profundamente no tempo de vida da nossa geração. É um livro com tantas histórias que nos custa acabá-lo quando chegamos às últimas páginas e aos últimos contos: é um livro que nos diverte e ao mesmo tempo nos informa e nos transmite conhecimento. Quem quiser ter uma visão realista, fundamentada e sem preconceitos da nossa vida diplomática nas últimas décadas encontrará neste livro muita informação, refletida e ponderada. Mas não encontrará um ensaio ou um tratado sobre a diplomacia em abstrato: encontrará histórias que são como instantâneos fotográficos da História com maiúscula dos últimos anos.

Espreitar assim os bastidores das decisões e discussões que fizeram a nossa História é o que as memórias normalmente oferecem, mas nem sempre com este tom natural e quotidiano com que o nosso autor as conta. De tantos fatores pessoais e subjetivos são afinal feitas essas grandes decisões que preparam o nosso futuro ou nos defendem do nosso presente!

Quem quiser ter uma visão realista, fundamentada e sem preconceitos da nossa vida diplomática nas últimas décadas encontrará neste livro muita informação, refletida e ponderada.

A escolha de Francisco Seixas da Costa de não arrumar as suas memórias em capítulos cronologicamente organizados, mas de as deixar brotar e surgir "antes que me esqueça", para desenvolver a partir da cada memória o seu sentido de humor ou a sua reflexão pessoal, torna a obra num livro tão diverso quanto inesperado. É que, se encontramos neste texto informações preciosas sobre a nossa história diplomática dos últimos anos, a partir de uma experiência profissional fora do comum, não ficamos por isso reduzidos, enquanto leitores, a estas matérias. As memórias são extremamente vividas e concretas, pois nada do que é humano lhes é estranho, e fazem-nos sentir a nós, leitores, bem por dentro dos variadíssimos ambientes que evocam.

E é de assinalar que nunca a sombra e o azedume de qualquer ressentimento assomam nestas páginas, atravessadas de humor e da alegria de estar vivo.

Caro Francisco, isto é o que eu escreveria sobre o teu livro no Diário de Notícias. Mas ousarei fazer assim o elogio de um amigo? Não me ficará isso mal e não te comprometerá a ti? Não falarão de "compadrio"? Deixo-te a ponderar estas graves questões e envio o texto, assim mesmo, para o Diário de Notícias. Desta vez não ouvirei os teus conselhos...

Luís Castro Mendes 
Diplomata e escritor

3 comentários:

Flor disse...

Texto maravilhoso! Parabéns Parabéns.

afcm disse...

...Será, certamente, um Felizardo!

carlos cardoso disse...

Quando um diplomata poeta escreve sobre os escritos de um diplomata cronista…

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