terça-feira, 2 de março de 2021

A dança das cadeiras


Foi ontem anunciada a condenação do antigo presidente francês, Nicolas Sarkozy, acusado de corrupção. A sentença prevê um ano de prisão efetiva. Haverá um recurso, mas Sarkozy ficará, por ora, retido em casa, com pulseira eletrónica. O antigo presidente tem ainda outros processos a correr contra si.

Há dias, quando lia um livro sobre o sucessor de Sarkozy, François Hollande, lembrei-me de ambos. De como projetavam imagens que não podiam ser mais contrastantes: Sarkozy tenso e agitado, Hollande calmo e sorridente.

Ainda com José Sócrates como primeiro-ministro, estive no Eliseu algumas vezes, em encontros com Sarkozy. Antes, havia ido lá, em diversas ocasiões, com António Guterres, para conversas e almoços com Jacques Chirac. E também acompanhei Pedro Passos Coelho a reuniões no Eliseu, neste caso com Sarkozy e Hollande.

A reunião de Passos Coelho com Sarkozy, pouco tempo após a posse do nosso primeiro-ministro, teve lugar no “salão verde”, que fica junto ao gabinete do presidente. 

No ”salão verde”, notei que as cadeiras douradas, à volta da mesa comprida, eram todas iguais, com uma exceção: a do presidente francês, mais cómoda, com braços. Achei aquilo um pouco bizarro: o chefe de Estado estava a receber um chefe de governo, seu homólogo no Conselho Europeu, e não concedia ao seu visitante um assento idêntico. Como se Sarkozy fosse ali um “primus inter pares”. Para meu gosto, era tudo demasiado Versailles, demasiado monárquico.

Passou, entretanto, um ano. Regressei ao Eliseu, acompanhando Passos Coelho. O presidente francês tinha mudado. Era François Hollande. A reunião era no “salão verde”. Olhei as cadeiras. A de Hollande, no mesmo lugar onde antes se sentava Sarkozy, era a tal, confortável, com braços. A que estava destinada a Passos Coelho era igual a todas as restantes. 

A França passara da direita à esquerda. Os presidentes eram o oposto um do outro. No entanto, a coreografia do protocolo, no Eliseu, continuava exatamente a mesma.

Como será com Emmanuel Macron? Posso apostar que está tudo igual.

5 comentários:

JPGarcia disse...

Caro Francisco,

Não é preciso ir a Paris. No palácio de Belém, a cadeira onde se senta o PR é mais alta do que o sofá destinado aos visitantes.

Um abraço

JPGarcia

aguerreiro disse...

Oh sr embaixador. Nestes poleiros não há direitas nem esquerdas. Há poder e empáfia. Raríssimas são as excepções, só me lembro de um Pepe Mujica do Uruguai ou o Eanes por cá. No demais ficam todos muito impados com o lugar.

Francisco Seixas da Costa disse...

É diferente, JPGarcia. Não são cadeiras à volta de uma mesa

carlos cardoso disse...

Nao me admiraria que a cadeira de Macron fosse ainda mais "vistosa" que a dos seus predecessores: o rapaz tem a mania das grandezas!

JPGarcia disse...

Vai dar ao mesmo, caro Francisco, e achava graça que MRS falasse assim de alto a Biden, Putin, XI, Merkel e Macron, se cá vierem.