domingo, 14 de março de 2021

Rapidamente e em força

Se acaso eu fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.

Como o haviam sido, desde o século XIX, os republicanos, os combatentes contra a ditadura, os anti-fascistas. Ser colonialista, ser adepto da manutenção do império colonial era um desígnio nacional, patriótico. Os republicanos puseram o país a ferro e indignação porque a “pérfida Albion” nos não deixou executar o sonho do “mapa cor-de-rosa”.

Portugal teimou, depois, em ir para a Grande Guerra para defender as suas possessões ultramarinas, as suas colónias. Cunha Leal, expoente da luta contra Salazar, era um ferrenho colonialista. Norton de Matos, antigo governador-geral de Angola, pedia meças ao ditador de Santa Comba no interesse em manter a nossa África nossa.

Nos anos 50, até o movimento descolonizador ter começado a abalar as anteriores certezas da esquerda portuguesa, as colónias eram “nossas”. Repito o que disse, com total convicção: se acaso fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.

A legitimidade da “posse” colonial só começou a ser posta em causa, em Portugal, pelo PCP. Honra lhe seja! Fê-lo, naturalmente, porque a opinião de quem o guiava (leia-se, Moscovo) tinha entretanto mudado. 

Já havia tido lugar, entretanto, a Conferência de Bandung. A China de Mao, ainda antes do cisma sino-soviético, já tinha cheirado “l’air du temps” e pressentido que o “terceiro-mundo”, a Tricontinental, o suposto “não-alinhamento”, eram a nova fronteira de um Norte-Sul inevitável.

Por cá, bem cedo, os maoístas afirmaram o anti-colonialismo com força e coerência. Honra a Francisco Martins Rodrigues, de quem (quase) todos eles são filhos, por muito bastardos que sejam ou mereçam ser. À parte o PCP e os maoístas, só os católicos “progressistas” os seguiram. Honra também lhes seja.

Os socialistas, presos ainda a um pensamento fora do tempo - que, deles afastados, a Ação Democrato-Social se encarregou de preservar, como num museu, até que se dissolveu no PPD -, demoraram bastante, até perceber que o vento tinha mudado e o império não tinha sentido.

Resumindo: tive a sorte temporal de já poder ser adolescente e adulto a tempo de ter uma atitude anti-colonial. Nunca defendi o “Angola é nossa”, embora saiba de cor a letra do hino, porque o debitava no Canto Coral do liceu. (Como cantava, e ainda sei, o hino da Mocidade Portuguesa - e não tenho a menor vergonha disso, diga-se!) Cada um vive o seu tempo e eu vivi o meu e não o disfarço.

E digo isto, porquê? Porque, nunca tendo sido colonialista - melhor, tendo sempre sido anti-colonialista, porque a isso me ajudou o tempo em que vivi - acho sem o menor sentido, entendendo que não leva a nada e que pode mesmo ser muito negativo para o nosso futuro, a evocação obsessiva das barbáries ocorridas nas guerras coloniais que está a emergir por aí - como a que a “Sábado” desta semana e o “Público” de hoje se dedicam.

A cada tempo corresponde um tempo, uma determinada maturação da consciência, uma certa racionalidade. Pensarmos que a nossa, a do dia que corre, é moralmente superior àquela que outros tinham no passado é mostra de uma arrogância imbecil. Por isso, nunca entendi muito bem o objetivo da auto-flagelação histórica com que alguns se comprazem, como se escavar na memória, de forma divisiva, trouxesse algum bem ao nosso futuro coletivo. O passado foi quando foi. Julgá-lo, à luz dos valores de hoje, é dar ares de possuirmos, só nós, a verdade incontestável, que se lhe sobrepõe. 

Apetece-me dizer a essa gente: coragem era ser anti-colonialiasta quando havia colónias. Sê-lo hoje, retrospetivamente, é uma arrogância saloia.

17 comentários:

caramelo disse...

Sr. Embaixador, é jä conhecido o argumento do "não se pode julgar o passado com os olhos do presente". Sobre isso, lembro-me bem do horror com que o meu avô me contava que em Angola, onde era caixeiro viajante, viu negros acorrentados em cima de carrinhas de caixa aberta, transportados para as plantações, como trabalho forçado, ainda em 1961, ano em que veio embora. Que os republicanos nåo soubessem ou não quisessem saber, é uma coisa. Que isso eram os valores do tempo...não. O meu avô tinha a terceira classe tirada em adulto e achava errado.
Ao rever a História, procurando conhecê-la melhor, assumir erros e crimes, se for preciso, não estamos a fazer mais do que outros povos têm feito. Como os americanos, ingleses, atė os franceses, com a Argélia, por exemplo.

Unknown disse...

Senhor embaixador
Desta vez concordo em tudo com o que escreveu; muitos, muitos, nunca perceberam a densa espessura da história. São leves demais...
MB

aguerreiro disse...

Nos meus tempos de adulto jovem não era nem deixava de ser colonialista ou anti colonialista. Hoje seria bem mais pró colonialista do que alguma vez fui. Bo que concerne ás ex-colónias é fácil de ver e basta não ser zarolho.
Cabo-Verde lá vai andando e vivendo á custa dum turismo muito sexual e das remessas de emigrantes.
A Guiné capturada pelo narcotráfico e por desavenças tribais.
Angola que gramou vinte anos de guerra civil e está submetida a uma oligarquia de corruptos e ladrões que vão estrafegando os rendimentos do petróleo e deixando morrer á fome e á miséria os seus,
Moçambique idem, aspas, aspas em continuas guerras e roubalheiras.
Por isso e 50 anos passados sou mesmo cada vez mais colonialista

Portugalredecouvertes disse...

já basta a "lavagem cerebral" que parece que fazem aos povos atuais das ex-colónias
a começar pelo Brasil
mesmo se não li as publicações, é
difícil de acreditar que em Portugal ainda há quem ajude "à festa"?!

vítor dias disse...

A atitude anti-colonialista do PCP data da sua fundação e acompanha toda a sua história. Como se demonstra no artigo que está aqui em https://otempodascerejas2.blogspot.com/2021/03/a-proposito-dos-100-anos-do-pcp.html. O senhor embaixador escusava de ver a mão de Moscovo em tudo.

albertino ferreira disse...

Concordo consigo, mas há certos comentadores que só querem ver os massacres coloniais. Então os terroristas da UPA não mataram civis inocentes, homens, mulheres e crianças, brancos e pretos de outra etnia!? A reacção foi legítima e os soldados e civis armados apenas mataram os criminosos da UPA e quem os apoiava; eu fiz a guerra colonial na Guiné-Bissau, apesar de ser contra não desertei, mas nunca dei um tiro felizmente, nem matei nenhum nacionalista, era atirador e não estava no ar condicionado mas no mato sem condições logísticas. Não fiquei com stress pós-traumático!

Luís Lavoura disse...

caramelo, o seu comentário é muito interessante.
Para resolver esse problema é que se inventou o racismo. A teoria racista diz, basicamente, que os negros não são seres humanos. Como eles não são seres humanos, é lícito agrilhoá-los, tal como o seu avô viu fazer.
É claro que a teoria racista custa um bocado a assimilar, mas é assim.
George Washington era mais claro; ele afirmou uma vez que os ameríndios eram "lobos sob a pele de seres humanos". Ou seja, os ameríndios não eram seres humanos, eles eram animais, mais explicitamente lobos, e, sendo animais, era perfeitamente lícito matá-los.

Luís Lavoura disse...

aguerreiro

Leia um livro que saiu recentemente em Portugal, a biografia de Hans Rosling, que trabalhou em Moçambique pouco após a independência e voltou lá 30 anos depois. O que ele diz é que é evidente que Moçambique após a independência era brutalmente atrasado, 30 anos depois progrediu imensamente.

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Tratando-se de factos e não de mistificações não vejo problema algum em falar abertamente sobre as coisas tal como foram, caso contrário a História não serve para nada.
A negação da violência é um problema coletivo que teimamos em não resolver.

Joaquim de Freitas disse...

“Se acaso eu fosse democrata e adulto nos anos 40 e 50 do século passado, teria sido um orgulhoso colonialista.”, Escreve o Senhor Embaixador.

Eu era democrata e orgulhoso anticolonialista nos anos 50…

E quando o meu país e o regime político fascista e colonialista, me foram insuportáveis, abandonei os dois, e vim viver em democracia noutro país colonialista!

Sabia que a França não era o país ideal. Mas era um país livre. Abrigava muitos Portugueses talvez como aqueles que denuncia. Democratas mas colonialistas…

A tendência dos chamados países civilizados para lançarem um véu modesto sobre as suas próprias tepidezes não é nova. Limpo nele, o democrata ocidental vê a palha mais facilmente no olho do vizinho do que o feixe que se aloja no seu.

Da direita, da esquerda ou do centro, vive num mundo ideal, num universo feliz onde tem sempre consciência ao seu lado. E não mudou, Senhor Embaixador. O Senhor conhece-os melhor que eu!

Sarkozy destruiu a Líbia, Hollande a Síria, Macron o Iémen, mas nunca haverá um tribunal internacional para os julgar. O Tribunal Penal Internacional (TPI) é um tribunal para os indígenas: está reservado aos Africanos. Medidos em face da nossa bela democracia, estes massacres não passam de lixo. Um deslocamento transitório, ao rigor, mas a intenção era boa.

Como é que as democracias podem querer outra coisa que não a felicidade de todos? Especialmente dirigido ao eleitor médio, o discurso oficial dos ocidentais reflecte sempre a inabalável garantia de pertencer ao campo do bem. Sofre de opressão, ditadura, obscurantismo? Não se preocupe, vamos enviar-lhe os bombardeiros!

Angola, Moçambique, Guiné, Goa, Cabo Verde, esses retalhos do Império, eram “nossos”, como a Argélia era “francesa”…Queriam ser livres? Não se preocupe, vamos enviar-lhe os bombardeiros! E por vezes a tortura!

Há países onde um colonialismo esconde outro, o antigo, aquele que tem as suas raízes na ideologia pseudo-civilizadora do homem branco.

Hoje a tendência, em França, em Portugal e no mundo, é que se os países colonialistas semearam o caos nesses países era para "partilhar a sua cultura". E por isso dói de ver as estátuas arreadas pelas multidões dos ingratos.

Jaime Santos disse...

A lógica de aguerreiro, aplicada a Portugal, quereria dizer que deveríamos ter permanecido uma província de Espanha, como a Catalunha, mais desenvolvida que o nosso País, e que teve o azar (ou a sorte, dependendo da perspetiva) de permanecer sob o jugo espanhol na mesma altura em que nós nos libertamos dele, também por causa da revolta que por lá ocorreu.

Estranhamente, uma percentagem considerável da população catalã deseja a independência, mau grado a 'generosidade' espanhola, a começar pela de Francisco Franco.

Não, Sr. aguerreiro, nada justifica que se mantenham os povos em servidão, não o suposto bem-estar deles e também não há cá fardos do homem branco que justifiquem isso.

O nacionalismo progressista que promoveu as lutas anti-coloniais falhou, também porque era da variedade marxista-leninista, já que os liberais ocidentais eram imperialistas, e os apoios não se escolhem nessas situações, mas só a hipocrisia pode justificar que aquilo que defendemos para nós não se defenda também para os outros. E como bem salienta o Luís Lavoura, para justificar essa hipocrisia é que se inventou o racismo.

Sr. Embaixador, eu cá discordo da sua opinião. Certamente que não se podem julgar os homens do passado pela nossa bitola, mas como outros já salientaram, já nessa época (aliás, já no século XVI, com homens como Francisco de Vitória e Bartolomeu de las Casas) que a dominação de outros povos vinha sendo criticada, mesmo que com outras justificações que não aquela que usamos, a do direito à autodeterminação.

E depois, com mais ou menos rigor por parte dos media, é boa altura de substituirmos os mitos a que chamamos História por aquilo que ela realmente foi, com a sua parte de sombra. E se isso ofender uma parte dos nossos concidadãos, pois paciência.

Julgo que não é preciso ser-se o Sr. Joaquim de Freitas a debitar as jeremíadas do costume (do alto da sua perporrência e do seu ressentimento de Esquerdista derrotado, que defende na verdade sistemas piores que o Capitalismo e que justifica os crimes dos primeiros com os do segundo) para reconhecer isso...

caramelo disse...

Luis Lavoura, o seu comentário é desconcertantemente cândido. Sério que racismo é assim? Não tinha ocorrido a mais ninguém ;)

Joaquim de Freitas disse...

« Perporrência » ! Esta é a segunda vez que leio esta « palavra » neste blogue…Não a conhecia! A primeira vez foi quando o Senhor Embaixador descrevia as andanças do rei D.Carlos no bordel parisiense! Trancrevo : “ a perporrência cabarética do diletante dom Carlos, que "reinava" por semanas os adiantamentos à casa real pelas casas de passe de Paris”.

Desta vez é o Senhor Jaime Santos que me brinda com este “palavrão”! Como suporta mal “O nacionalismo progressista que promoveu as lutas anti-coloniais” que, escreve: “falhou, também porque era da variedade marxista-leninista”, toca a dar da “perporrência” ao Sr. Joaquim de Freitas.

Como se Gandhi , o Pai da Independência da Índia, Léopold Sédar Senghor, Presidente da Republica e Membro da Academia Francesa, Presidente do Senegal , Félix Houphouët-Boigny, Presidente da Republica da Costa do Marfim, e tantos outros na Argélia, no Marrocos, na Tunísia, e algures fossem “marxistas-leninistas”…

O que o Senhor Jaime Santos não quer ver é que Portugal não teve a capacidade de abrir o caminho a homens desta têmpera e desta qualidade, pelo menos nas três mais importantes colónias portuguesas, que foram obrigadas a fazer apelo à rebelião para obter a sua independência. Encorajadas evidentemente pelos seus aliados ideológicos, dos dois lados, segundo a tendência dos partidos.

E que os EUA tenham feito pressão sobre o RU para conceder a independência às suas colónias no mundo, num largo movimento de ajuda à emancipação desses povos, à saída da Segunda Guerra Mundial, e mesmo se interessada, e tenham feito a mesma pressão sobre Salazar, armando mesmo os revoltosos, em competição como a URSS, e Cuba, não foi o marxismo-leninismo que falhou: foi Portugal, incapaz de prever a marcha do mundo, sobretudo com o aviso de Bandung, abandonado pelos seus próprios aliados ideológicos.

O que não é de admirar porque mesmo na Metrópole, foi preciso uma rebelião armada do seu Exército, para acabar com o fascismo, que sob certas “nuances” reaparece aqui , em certos pontos de vista sobre um tema de actualidade: o racismo.

Sim, George Washington era racista, era mesmo esclavagista. Mesmo se a partir da década de 1780, foi um fervoroso abolicionista da escravatura. No entanto, até à sua morte em 1799, manteve mais de trezentos escravos na sua quinta em Mount Vernon. 123 pertenciam-lhe pessoalmente, os outros pertenciam à sua esposa.

E não esquecer, quando se fala de Las Casas, que na "Controvérsia de Valladolid" o racismo foi mais longe que o que alguns pensam: era a natureza mesmo do ser humano que era posta em causa: "Os Indios têm ou não uma alma?" .Em Auschwitz pensava-se também assim... Os sub-homens do Holocausto do nazismo.

E aqueles que neste blogue têm um discurso “compreensivo” do racismo, indo até à candura indecente, assemelham-se a Trump, que convoca a memória dos seus antecessores, treze dos quais possuíam escravos, para pôr em perspectiva as acções e as palavras dos supremacistas, no seu desejo de absolver neonazis e supremacistas.

E se um tipo como Trump agrada a alguém como referência, a mim enoja-me. Como à maioria do povo americano.

J.Tavares de Moura disse...

Não concordo com a crítica às reportagens e documentários sobre o nosso passado colonial. Aliás, acho mesmo que, em Portugal, ao contrário de outros países, o colonialismo e sobretudo a guerra colonial, são temas pouco tratados e investigados, o que ajuda a prevalece ainda muito da história oficial do Estado Novo, nomeadamente, a tese do colonialismo brando.

Independentemente da discordânca quanto à opinião expressa pelo Francisco Seixas da Costa, acho mais grave que escreva coisas que não correspondem à verdade factual.

Num comentário acima, Vitor Dias, já desmentiu a versão referente ao PCP, que, na verdade, e ao contrario do afirmado, sempre manifestou uma posição anti-colonial.

No que respeita aos socialistas, e sobretudo ao seu principal dirigente, Mário Soares, são várias as posições publicas anti-coloniais, nos finais dos anos 50, e foi um dos redactores e signatários do Programa para a Democratização da República, em 1961, onde se afirma uma clara posição anti-colonislista, e onde consta: "...repudiando qualquer manifestação de imperialismo colonialista, subordinar-se-á ao objectivo de assegurar os direitos fundamentais dos povos no plano político, económico, social e cultural."
Além disso, os principais dirigentes da Acção Socialista Popular, fundada por Tito de Morais, Mário Soares e Francisco Ramos da Costa, e que antecedeu o Partido Socialista, eram todos militantes anti-colonialistas com posições publicas conhecidas e dois deles exilados por acividades anti-colonialistas e de oposição ao regime.

Assim, não é verdadeira, por falta de fundamento factual, a afirmação: "Os socialistas, presos ainda a um pensamento fora do tempo...demoraram bastante, até perceber que o vento tinha mudado e o império não tinha sentido."

Jaime Santos disse...

Senhor Joaquim de Freitas, não vai agora valer-se de uma gralha na escrita de uma palavra para construir um argumento, ou vai? É que isso demonstra pequenez...

Pesporrência - Acção de exibir autoridade; em que há altivez, arrogância e/ou insolência.

Espero que esteja esclarecido quanto à minha intenção. Sim, o Senhor defende sistemas piores que o capitalismo com base nos crimes deste (ainda há tempos falava da Ostalgie), que toda a gente sabe que existem.

Precisa de fazer melhor do que isso, porque com franqueza, saltar da frigideira para o lume não é algo que interesse a ninguém razoável...

Eu também vejo aquilo que é óbvio, a saber, que um regime anti-comunista e colonialista como o Português não iria seguramente tomar a iniciativa de promover a independência das suas colónias. Nenhuma potência o fez senão obrigada, nem mesmo o Império Britânico, mesmo na Índia, porque iria Portugal agora fazê-lo?

Só que uma coisa é a justeza das lutas anti-coloniais, que julgo que ninguém discute, tirando alguns hipócritas saudosistas do antigamente, outra é daí concluir que os Países emergentes delas foram bem governados após as independências, o que seria uma falácia completa. E na maioria dos casos, não foram, também e sobretudo por causa do modelo que escolheram.

E com certeza que nem todos os nacionalistas anti-coloniais eram marxistas-leninistas (já sei que não perdoa imprecisões de linguagem, sucede que a relativa brevidade não passa sem elas, se calhar é por isso que os seus textos são intermináveis), mas na maioria das antigas colónias europeias o modelo de desenvolvimento nacional tinha uma inspiração esquerdista ou mesmo marxista-leninista e falhou.

E não apenas falhou, como o seu sucedâneo actual não passa de um modelo de capitalismo de Estado que alimenta elites profundamente corruptas e criminosas (mesma coisa para Países como a Rússia, Hungria, etc).

E depois falhou também quando aplicado a Portugal e até falhou quando Mitterrand, que nada percebia de Economia, se lembrou de aplicar uma versão dele em França, numa altura em que o Reino Unido o tinha abandonado e ingressado na CEE, porque o crescimento económico continental era superior. Mitterrand teve que chamar Delors, a França nunca mais se recuperou, e o resto é História...

Curiosamente, as condições do operariado são melhores hoje num País como a Alemanha, que nunca alinhou na nacionalização da grande Indústria, do que o são em França ou no Reino Unido (o mesmo se pode dizer da social-democracia nórdica).

E quando falamos do falhanço da Europa de Leste, bom aí falamos mesmo de falência total.

E sim, já sei, estou a amalgamar coisas diferentes, mas a inspiração estatista, chamemos-lhe assim, é a mesma.

O que esses povos irão fazer daqui para a frente é lá com eles, saberão com certeza livrar-se dos ditadores que os exploram, mas não tenho agora que tomar o seu exemplo como bom.

Já sei que classifica de colonialistas ou pior os que discordam de si, mas eu limito-me a tirar algumas lições da História (que não meras lições de moral), coisa que o Senhor parece incapaz de fazer. Quando uma ideia falha muitas vezes na prática, é capaz de ser um bocadinho estúpido continuar a defendê-la, por mais generosa que pareça à primeira vista.

Joaquim de Freitas disse...

Eu nem sabia o que significava “pesporrência”! ! Mas pois que há “insolência” na “coisa” até o aceito! É prova de juventude…
Mas não aproveite para me insultar de seguida: “pequenez”, não. Eu não diria isso do Senhor.
Sejamos dignos deste respeitável “blogue”.

“Sim, o Senhor defende sistemas piores que o capitalismo”, escreve o Senhor.

Não sei como o Senhor Jaime Santos consegue defender as potências e os regimes políticos capitalistas, que lançaram o mundo em duas terríveis guerras mundiais, com dezenas de milhões de mortos, a segunda contando, só ela, por 85 milhões, mais que 2% da população mundial da época.

E que desde 1945 continuam a provocar outras guerras no mundo inteiro, com centenas de milhares de mortos, sem contar a destruição de Estados soberanos. Quer que faça a lista? E o que é grave, frequentemente para operar “regimes changes”…como eles dizem, quando estes não são “flexíveis”… Quer um exemplo?

Estamos em Março, o caos líbio.

Milhares de mortos sob as bombas, milhares de refugiados nas estradas da Europa, centenas de afogados no Mediterrâneo…

Há dez anos, a 19 de Março de 2011, as forças da UE/NATO iniciaram o bombardeamento naval da Líbia, a partir das bases italianas.

Em sete meses, a aviação UE/NATO realiza 30 mil missões, incluindo 10 mil ataques, com mais de 40.000 bombas e mísseis.

O regime líbio era marxista-leninista?

Este Estado africano, que, como explicou o Banco Mundial em 2010, manteve "elevados níveis de crescimento económico", com um aumento anual do PIB de 7,5%, e registou "elevados indicadores de desenvolvimento humano" incluindo o acesso universal ao ensino primário e secundário e, para mais de 40% às universidades.

Apesar das disparidades, o nível médio de vida na Líbia foi mais elevado do que noutros países africanos. Cerca de dois milhões de imigrantes, a maioria africanos, encontraram lá trabalho.

O Estado líbio, que tinha as maiores reservas de petróleo de África mais outras reservas de gás natural, deixava margens de lucro limitadas para empresas estrangeiras.

Graças às exportações de energia, a balança comercial da Líbia teve um excedente anual de 27 mil milhões de dólares. Com estes recursos, o Estado líbio investiu cerca de 150 mil milhões de dólares no estrangeiro.

Os investimentos líbios em África foram cruciais para o plano da União Africana de criar três instituições financeiras: o Fundo Monetário Africano, com sede em Yaounde, Camarões; O Banco Central Africano, com sede em Abuja, Nigéria; Banco Africano de Investimento, com sede em Trípoli. Estes organismos teriam sido utilizados para criar um mercado comum e uma moeda única de África.

Não foi por acaso que a guerra da NATO para demolir o Estado líbio começa menos de dois meses após a cimeira da União Africana, em 31 de Janeiro de 2011, que deu luz verde à criação do Fundo Monetário Africano no ano.

Os e-mails da Secretária de Estado da administração Obama, Hillary Clinton, mais tarde destacados pelo WikiLeaks: os Estados Unidos e a França quiseram eliminar Gaddafi antes de usar as reservas de ouro da Líbia para criar uma alternativa monetária pan-africana ao dólar e ao franco CFA (a moeda imposta pela França em 14 das suas antigas colónias).

Isto é provado pelo facto de, antes de os bombardeiros entrarem em acçao em 2011, serem os bancos que entram em ação: sequestram os 150 mil milhões de dólares investidos no estrangeiro pelo Estado líbio, a maioria dos quais desapareceu.

No grande rapine destaca-se Goldman Sachs, o banco de investimento mais poderoso dos EUA, do qual Mario Draghi era vice-presidente.

Os valores do Ocidente postos em evidência na Líbia, como no Iraque, no Vietname e na Síria, sem esquecer o Afeganistão.

O texto é longo. Tem razão. Mas o colonialismo e o neo colonialismo estão presentes nestas acções. A sonhada colónia de “povoamento” italiana não estava alheia no apoio dos italianos ao crime do assassinato de Kadaffi.

Deixo-lhe o cuidado de ler bem o seu último parágrafo, Senhor Jaime Santos. E quem não tira lições da Historia.

Joaquim de Freitas disse...

"como a Alemanha, que nunca alinhou na nacionalização da grande Indústria" escreve o Senhor Jaime Santos.

Duma certa maneira, os vencedores optaram por certas nacionalizações. Os vencidos não tinham o direito, muito simplesmente.

Talvez saiba que os americanos, senhores da Alemanha ocidental, sendo “naturalmente” opostos às nacionalizações, não as permitiram em 1945.
O que não evitou que Volkswagen, a maior industria automóvel alemã,e do mundo, é co-gerida pelo “Betriebsrat”, ou "Conselho de Empresa” dominado pelo sindicato IG Metal.

Defende a manutenção de postos de trabalho na Alemanha e, em particular, na sede do grupo em Wolfsburg, contra deslocalizações excessivas.

E pode crer que estes “Betriebsrat”, ou "Conselhos de Empresa” são muito eficazes. Dirigi a nossa filial alemã e posso dizer-lhe que funcionam bem.

Os primeiros “Conselhos de Empresa”, em França, foram criados por De Gaulle em 1945.

Os temas amalgamados pelo Senhor Jaime Santos, mereceriam um comentário mais fino.

Economia alemã e francesa. É verdade que a França, como o RU, nacionalizaram mais em 1945, a grande indústria, isto é os sectores chave, que a Alemanha. Mas os alemães não mandavam no seu país em 1945.

O Partido Comunista era o maior partido francês à saída da guerra. Fazia parte do governo de de Gaulle, Isso explica as nacionalizações dos sectores chave. Mas também todos os avanços sociais obtidos pelos ministros comunistas: férias pagas, segurança social mais avançada do mundo, salário mínimo garantido, etc.

Curiosamente, a Alemanha, só em 2015 é que criou o salário mínimo, actualmente a 9,35 euros/hora, contra 9,25 em França.


Quanto ao seu ultimo paràgrafo, é pena. Nao me conhece.