sábado, 6 de março de 2021

Ideias avançadas

“Tem ideias avançadas!”. Demorei alguns anos até decifrar o que o meu pai queria dizer com esta expressão, quando a aplicava a alguém. Com isso, ele pretendia significar que essa pessoa era comunista ou que andava lá próximo. Auto-qualificando-se sempre de “republicano”, querendo com isso deixar claro que era democrata (também não gostava dos monárquicos, é verdade), nunca lhe detetei qualquer simpatia (mas também nenhuma particular antipatia) pelos comunistas. Tinha-lhe agradado, claramente, que os comunistas tivessem atazanado o regime salazarista - a “situação” política que, acima de tudo, ele detestava. Mas as ideias do PCP, depois do 25 de abril, se bem que nunca o tivessem assustado (como aconteceu a muita gente que nos era próxima), ficaram também sempre longe de o entusiasmar. Foi a única pessoa a quem sempre ouvi pronunciar “marxismo” com o “x” a soar a “ch”, como que a querer marcar uma distância (sorria, quando eu pretendia corrigi-lo). E recordo bem a perplexidade com que viu a candidatura de Salgado Zenha, a figura que mais admirava dentro do PS, a merecer a simpatia de muitos comunistas.

Dei comigo a pensar como reagiria o meu pai se, no dia de hoje, eu lhe dissesse que o PCP faz 100 anos. Provavelmente, diria: “Ora essa! Eu nasci antes deles, mais de uma década!”. Mas não posso perguntar-lhe.

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