quinta-feira, 25 de março de 2021

Barros Moura


Não vão acreditar, mas foi ao ler hoje o “Borda d’Água” para 2021 - consulta que, não fazendo parte dos meus hábitos, às vezes acontece - que me dei conta de que, precisamente na data de hoje, em 2003, morreu José Barros Moura, com 58 anos.

Barros Moura foi uma figura muito interessante na vida política portuguesa. Ativista académico prestigiado na universidade de Coimbra, cedo se ligou ao PCP, partido em que permaneceu 27 anos. A crise que o mundo comunista atravessou, após o final da Guerra Fria, e o tipo de respostas que essa nova situação veio a desencadear dentro do PCP, terá levado Barros Moura a integrar uma ala crítica que, a prazo, entrou em rutura com a direção do PCP, partido do qual ele próprio viria a ser afastado. Isso conduziu à sua aproximação do PS, partido do qual foi deputado europeu e dirigente parlamentar.

Conheci José Barros Moura nesses seus últimos tempos políticos. Era um período em que eu tinha responsabilidades executivas na área europeia e tive o gosto de poder tê-lo frequentemente como interlocutor, sempre interessado mas também crítico, face às orientações que o governo seguia. Era um homem muito inteligente (em Coimbra, na universidade, era conhecido pelo IBM - Inteligente Barros Moura), simpático, que recordo sorridente e sempre amável, com o seu farfalhudo bigode. Tratava os temas europeus com conhecimento e interesse, embora nem sempre na mesma perspetiva que o governo que o partido a que aderira seguia. Mas nunca me recordo de ter tido com ele qualquer divergência pública.

Um dia, estava eu de passagem por Coimbra, tocou o meu telefone. Era um amigo, jornalista, a dizer que tinha sabido que o “Jornal de Notícias” ia publicar, no dia seguinte, a notícia de que eu ia sair do governo, umas semanas depois, para regressar à minha carreira, e que Barros Moura me ia substituir como secretário de Estado.

A notícia não tinha o menor fundamente nem sentido: nem eu ia sair do governo nessa altura (já tinha combinado a altura em que isso ia acontecer), nem um lugar de secretário de Estado estava à altura de uma figura com a importância de Barros Moura. Tudo aquilo não passava de uma intrigalhada - e eu sabia bem quem a estava a fazer, e porquê. Liguei ao José Barros Moura, a anunciar-lhe a sua “entrada” no governo... Não queria que ele fosse surpreendido pela notícia no dia seguinte. Agradeceu-me e rimos com a situação.

José Barros Moura morreu, uns anos depois, com menos de 60 anos. A seriedade política ficou como a sua imagem de marca.

Que o seu desaparecimento, há 18 anos, venha agora no “Borda d’Água”, prova bem a utilidade dessa publicação. Mais uma razão para continuar a comprá-la, como faço há muitos anos.

1 comentário:

Flor disse...

Borda D'Água um pequeno almanaque com 92 anos e que ainda hoje nos consegue surpreender com a importância das informações. Lembro-me que há uns anos estando eu nas salas de espera do IPO de Lisboa aparecia uma ou duas pessoas a vender o Borda D'Agua. Eram de nacionalidade Romena e eram os únicos que entravam ali só para vender o almanaque e pensos rápidos. Eu comprava sempre também porque me lembrava de vê-lo na casa dos meus avós.

O Doutor Barros Moura era um político que eu achava simpático. Lástima que partiu muito cedo.