“O teu avô era da Maçonaria”, dizia-me o meu pai, na minha juventude, lá por Vila Real. Imagino que o fizesse em voz baixa, por forma a não inquietar o meu outro avô, com quem vivíamos, pai da minha mãe, pessoa conservadora e que imagino seria pouco dado a apreciar esses caminhos de secretismo cívico. O meu avô mação tinha morrido no início dos anos 20, era o meu pai ainda uma criança, e estas nossas conversas tinham lugar nos anos 60.
Como o meu pai e o seu sogro se davam muito bem, não obstante o meu pai ser “das esquerdas”, como se dizia nessa ala da família, a boa educação e a solução para um são entendimento entre os dois passaram sempre, ao que creio, pela fuga a temáticas politicamente polémicas. E resultou muito bem, pelo que vi.
Nenhuma das duas heranças dos meus avós me tocou. Nem fui nunca para a Maçonaria, assunto que sempre abordei com risonha curiosidade, nem me deixei alguma vez catequizar por uma leitura benévola de algumas caraterísticas do Estado Novo, que o meu avô materno discretamente cultivava.
Como sempre dei por mim com um favorecimento tendencial das causas minoritárias, a Maçonaria, que sabia diabolizada e perseguida pelo Estado Novo, e que ainda por cima estava ligada a essa memória distante do meu avô paterno, acabava por merecer-me alguma simpatia, desde a juventude. Devo confessar, contudo, que os seus ritos me pareceram sempre um tanto bizarros e em nenhuma circunstância tive a menor tentação de aderir ao reino do “grande arquiteto universal”. Verdade seja que também nunca ninguém me convidou para tal, talvez porque resultasse expectável a minha reação.
Serve isto para dizer que, nada tendo a ver com tais obediências filosóficas, acho insensato e anti-democrático que se pretenda sujeitar à transparência e escrutínio público a eventual pertença a essas confissões. Ninguém tem o direito de perguntar ao outro a sua religião, o seu clube preferido, as suas inclinações no voto ou a sua orientação sexual. Se vamos por aí - e já se percebeu que este ataque tem uma agenda política clara, parte dela passando pela luta interna no PSD - arriscamos a transformar-nos numa sociedade pidesca, coscuvilheira e intrusiva. Como se diz em inglês, “mind your business” que, por cá, se traduz popularmente por “trata da tua vida e não chateies os outros!”