segunda-feira, 29 de março de 2021

Nabeiro e o contrabando

Já muito foi dito, e bem, sobre as qualidades desse homem de exceção que é Manuel Rui de Azinhais Nabeiro. 

Nabeiro tem origens humildes e não fez mais do que a antiga escolaridade primária. Numa entrevista dada ao Expresso, há cinco anos, revelou, sem problemas, ter estado envolvido em contrabando de café para Espanha, o que terá funcionado como a sua primeira fonte de rendimento. E também não escondeu o facto de, ainda na ditadura, ter sido presidente da Câmara municipal de Campo Maior, nomeado pelo regime de então. Com a democracia, viria a ser eleito pelo PS para o mesmo cargo.

Para quem vive em terras distantes das zonas de fronteira, o fenómeno do contrabando é pouco conhecido e compreendido em toda a sua extensão. Com os tempos, aprendi que olhá-lo como um crime fiscal como outro qualquer é uma leitura demasiado simplista.

Uma noite de inícios de 1975, no palácio da Ajuda, no seu gabinete de chefe da 2a. Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, o general (então brigadeiro) Pedro Cardoso, estavam quatro pessoas. Com uma exceção, éramos todos militares, sendo eu o único miliciano. Além de Pedro Cardoso, estava o também já desaparecido general (então major) Gabriel Espírito Santo. O civil era o pai de Pedro Cardoso, um senhor já bastante idoso e que, ao que lembro, tinha sido diretor-geral das Alfândegas.

O tema da noite - e não era por acaso que por ali estávamos, já bem tarde - era uma operação que, àquela hora, estava a ser desencadeada na área de Setúbal pela "Secção de Apoio", uma grupo operacional da 2a Divisão. Os resultados da ação demoravam a chegar, nesses tempos sem telemóveis. Tratava-se do desmantelamento de uma rede de contrabando, que me lembro envolver tabaco, mas não só: à época, essas redes eram utilizadas para levar obras de artes portuguesas e outros bens valiosos para o estrangeiro.

Guardei para sempre aquilo que o pai de Pedro Cardoso então nos disse. Explicou ele que era uma verdadeira ironia serem agora os ricos a contrabandear, porque "o contrabando é uma arma dos pobres".

Era algo irónico ouvir um antigo diretor-geral das Alfândegas explicar que, nas remotas áreas de fronteira, o exercício do contrabando era um recurso compreensível por parte de quem pouco tinha para comer e que usava essa prática, pela qual se eximia à fiscalidade oficiosa, para dar de comer às famílias. E contou ele que, sendo a travessia ilegal das fronteiras também um mecanismo para fugir à repressão policial por parte de ativistas políticos, era patente existir uma cumplicidade objetiva, em especial no Alentejo, entre os contrabandistas e os ativistas revolucionários, particularmente os comunistas. Dizia ele isto com um ar de compreensão, de naturalidade.

Essa noite abalou alguns dos preconceitos que eu tinha criado sobre o contrabando. Os 90 anos do comendador Nabeiro é uma boa ocasião para me lembrar de isto.

9 comentários:

Luís Lavoura disse...

era patente existir uma cumplicidade objetiva, em especial no Alentejo, entre os contrabandistas e os ativistas revolucionários, particularmente os comunistas

Álvaro Cunhal, aliás Manuel Tiago, tem num dos seus livros uma cena em que um militante comunista atravessa a fronteira sob a orientação de um contrabandista.

aguerreiro disse...

Os contrabandista depressa viraram "passadores" e tanto ajudavam a passar a fronteira gente do Reviralho, incluindo comunistas ou mais tarde adeptos do ELP ou do Spínola bem como imigrantes para França, na gíria da minha terra "passar carneiros" o que interessava é que pagassem, sendo os contrabandistas absolutamente indiferentes ás opiniões políticas dos "passados", Também era verdade que na maioria dos casos os pica-chouriços (Guarda Fiscal) estavam mais do que cientes do que se passava e também lucravam com isso. Era um modo de todos ganharem a vida sem grandes prejuízos para o país, e tiveram ao longo dos tempos diferentes especialidades, desde tabaco, sedas, perfumes no início do séc XX. Com a Guerra Civil acentuou-se o trafego de artigos alimentares , sabão, sucata de cobre e pneus e borracha para Franco, anos 50 o café (tempos do sr Nabeiro)e os caramelos, a que se seguiu anos 60 o tráfico humano de emigrantes para França, (os tais "carneiros"). depois anos 70 e 80 tráfico de tabaco e em especial drogas ( haxiche "o chocolate" e cocaína "a fariña") o que ainda se mantém nos dias de hoje como se vê e ouve nas notícias que correm, mas ao contrário de antigamente em que metade das populações da Raia viviam desse tráfego hoje são muito poucos mas de elevado coturno e poder financeiro.

Joaquim de Freitas disse...

Os contrabandistas foram preciosos aliados da resitência durante a guerra. Falo dos bascos, sobretudo, que colaboraram com os Aliados, incluindo na recepçao , acomodação e fuga de aviadores aliados, abatidos pela DCA alemà.

Muitos foram parar aos campos de morte e de onde chegaram a casa doentes para sempre, todos eles, hoje, mortos.

Quando o Sr. aguerreiro cita " o tráfico humano de emigrantes para França, (os tais "carneiros"), não devia esquecer que muitos destes "carneiros" eram por vezes "filhos de gente bem" como se diz, da burguesia, que escapavam às guerras de Africa. Ajudei alguns a encontrar um trabalho e documentos.

Carlos Fonseca disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
maitemachado59 disse...

Em 1966 fui daqui casar ao Porto. O meu marido (hoje ex) era Britanico. Depois da consabida lua-de-mel fomos apanhar um navio pde volta para a Gb, em Vigo. A minha madrasta foi conosco pois ia ver um espevcialista nessa cidade. Na fraonteira, foi o bom e o bonito: a noa, nao nos tocaram mas a minha pobre madrasta e a su bagaem foram mais que revistads - a forca queriam descobrir cafe! Claro que nao acharam nada. Ela, que era muito boa pessoa, nao levou a mal e ate achou graca. Quem nao achou graca nenhuma foi o meu Pai, que quando soube fez um estalhardaco tremendo. So sei que ela recebeu desculpas das autoridades fronteiricas.

maitemachado59

Eugénio Lisboa disse...

Quando, em 1954, fazia o meu serviço militar, como oficial miliciano, em Portalegre, no Batalhão de Caçadores nº1, tinha, no pelotão que comandava, entre outros, um recruta alentejano, que um dia me pediu uma licença de dois ou três dias, para ir tratar de assuntos pessoais urgentes. Concedi-lha e, no regresso, trouxe-me uma garrafa de um álcool qualquer. Agradeci-lhe, mas disse-lhe que não podia aceitar o presente. Vendo-o penalizado, disse-lhe que não o quisera magoar, mas que não podia aceitar presente. Para amenizar a coisa, perguntei-lhe o que fazia antes de ser chamado para o serviço militar. Respondeu-me com toda a candura: "Era contrabandista." Sorrindo , voltei a perguntar: "E que pensas fazer quando acabares o serviço militar?" Respondeu, sem pestanejar: "Quero ser guarda fiscal. "
E não há dúvida que vais bem preparado: darás um funcionário muito competente." E ficámos nisto.
Eugénio Lisboa

João Forjaz Vieira disse...

Na instrução militar havia uma última operação de treino antes de embarcar para África. A minha decorreu na serra de Ossa, durante quinze dias. Uma noite fomos fazer uma caminhada longa pela serra fora e o “Fonseca”, um latagão da raia do Alentejo, persistia em atrasar-se, no seu passo alentejano. Furioso barafustei com ele várias vezes em crescente irritação até que ele disse: não se preocupe que me não perco. Eu sou contrabandista de profissão. Há bom, respondi
João Vieira

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Eugénio Lisboa. Um forte abraço para si. E parabéns pela magnífica entrevista ao Expresso

redonda disse...

O meu avô paterno passou contrabando em Trás-os-Montes e o meu bisavó materno foi guarda-fiscal no Alentejo.