terça-feira, 9 de março de 2021

Palmas a Tomaz


“Queres ir à posse do presidente da República? Posso arranjar um convite para ti”. A pergunta foi-me feita, de forma sorridente e algo desafiante, durante um jantar em casa de família, em Lisboa, por um tio, casado com a irmã da minha mãe, deputado à Assembleia Nacional pelo círculo de Vila Real. 

Estávamos em 1972. Américo Tomaz era o presidente em questão. Tratava-se da sua segunda recondução. Em 1958, em compita com Humberto Delgado, num ato eleitoral, por sufrágio direto universal, de que a História acolheu para sempre as flagrantes fraudes, Tomaz chegara à presidência.

O regime havia aprendido bem as lições desse momento atribulado. E, para evitar sobressaltos democráticos, mudou a lei. O presidente deixou de ser eleito por sufrágio popular e passou a ser escolhido por um “colégio eleitoral” composto pelos deputados à Assembleia Nacional, pelos procuradores à Câmara Corporativa e por algumas figuras mais. O controlo do resultado do exercício ficava assim garantido. Já fora “reeleito” assim em 1965.

A saída de cena de Salazar e a entrada em funções de Marcelo Caetano não mudou as regras do jogo. Por isso, não obstante alguma movimentação por parte da “ala liberal” de Francisco Sá Carneiro, para encontrar um candidato alternativo, Tomas acabaria por ser “reeleito” de novo, em 1972. O irrequieto deputado não tardaria a fartar-se da cinzenta “primavera” marcelista e a resignar ao cargo, regressando ao Porto.

Ir ver a posse de Tomaz?! Tenho, em geral, uma visão muito lúdica das coisas. Ir à posse do presidente seria um “must”. Creio que disse logo que sim. 

Dois anos antes, eu tinha estado bem ativo na campanha da CDE de Vila Real, que combatera a lista da União Nacional, de que o meu tio tinha sido o primeiro candidato. Mas as nossas relações eram, e foram-no até ao final da sua vida, excelentes. A política não nos dividia, minimamente. Foi sempre um dos meus maiores amigos.

A família, à volta da mesa, estava imensamente divertida. Então o proclamado “esquerdista”, que tinha andado nas lides do associativismo universitário (à época, era estudante-trabalhador, como funcionário bancário), sempre a clamar contra o regime, não resistia a ir ser “voyeur” de um evento da “situação”?! A verdade é que a minha curiosidade estava a suplantar, pelo desafio, a minha coerência. Achava deliciosamente divertida, e irresistível, a possibilidade de observar, de perto, aquele espetáculo de pompa e protocolo.

E assim, dias depois, de casaco (tenho impressão de que, à época, não usava fatos) e gravata, com o convite na mão, lá me apresentei na porta lateral de S. Bento, num dia de agosto de 1972. Acabei numa galeria alta, sentado ao lado de gente que, de todo, não conhecia. Apenas me recordo de estar bem de frente para a cena.

O espaço, como toda a Assembleia, estava apinhado. Todo o regime, dos próceres aos turiferários (os dicionários alguma utilidade hão-de ter!), estava ali reunido. A certa altura, Tomaz entrou na sala, com Marcelo e alguns maiorais do regime, tudo de labita e condecorações.

As galerias, unânimes, levantaram-se e, por minutos, aplaudiram. Tal como o iriam fazer no termo dos discursos e das cenas formais que se seguiram, até ao final da cerimónia, de que deixo a única imagem que descobri, cheia de brumas (devem ser as tais “brumas da memória”!).

Deixo à imaginação fértil do leitor o que terei eu feito naquela situação, com toda a gente, à minha volta, a bater as mãos! Quem me tinha mandado a mim brincar com coisas sérias! 

Há horas, ao assistir na televisão à cerimónia de posse, na recondução de Marcelo Rebelo de Sousa, lembrei-me - confesso que era uma cena que já quase tinha esquecido, e eu costumo esquecer poucas coisas - esse meu dia de imenso embaraço, há mais de meio século.

Porém, que fique claro: se esta manhã eu tivesse estado em S. Bento, teria aplaudido. Desta vez, convictamente.

Descobri a cerimónia de 1972, há pouco, nos arquivos da RTP. Não sei se alguém ainda “aguenta” vê-la. Eu aguentei, mas só na época. Agora, se quiser, pode ver aqui.

4 comentários:

Ésse Gê (sectário-geral) disse...

Nessa quarta-feira 9 de Agosto também “assisti” à cerimónia, mas de longe. Eles puseram guarda de honra com tropa em todo o percurso entre Belém e S. Bento. Eu era aspirante a oficial miliciano no Regimento de Infantaria 1, na Amadora, e estava a pouco mais de um mês de embarcar para a Guiné. O pelotão que comandava iria ser colocado nas imediações da Cordoaria Nacional. A ordem era mandar “apresentar armas” quando o carro do dito cujo alcançasse a zona do pelotão. Só que o tropel das ferraduras da nutrida escolta da GNR a cavalo que acompanhava a presidencial viatura abafava as vozes de comando e deu-me algum gozo ver cada militar a executar em ‘ordem desunida’ e à medida que via o parceiro do lado ‘mexer-se’ o movimento em honra do de cujus.
P.S. - Nesse dia o pessoal levantou-se mais cedo pois iríamos ser transportados em viaturas até ao Depósito Geral de Adidos (quartel na Calçada da Ajuda) para seguir em marcha apeada até ao ponto. Quando no quarto colocava nas botas os atacadores brancos que se usavam naquele dia faltou a luz; chato, mas aberta a janela, o lusco-fusco que se estava a dissipar deu para completar a operação. Só mais tarde vim a saber que a luz tinha sido apagada à bomba pela ARA nuns postes para os lados de Carenque e que algures em Lisboa tinham passeado uns porcos fardados de almirante.
Eurico Dias

Tony disse...

"Ofereceram uns canários, piriquitos digo, à minha mulher". "Estou aqui, pela primeira vez, desde a última vez que aqui estive". Agora digo eu: Valha-me Nossa Senhora.

Tony disse...

Alguns vão à tomada de posse, mas depois portam-se mal, com desilegância, ressabiamento, raivosos, mal educados. Assim, não devem ir. Nem ali, nem a lado nenhum, porque só estorvam. O Sr. Embaixador, apesar de jovem e do Norte, portou-se bem. É uma questão de Berço.

Ana Vasconcelos disse...
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