terça-feira, setembro 14, 2010

Silêncio

Tinham sido longas horas, primeiro de avião, depois em viaturas militares, neste caso rodeados de forte segurança. O ministro estava de passagem naquela região do mundo. Aproveitando essa casual circunstância, o governo decidira destacá-lo para o representar na cerimónia de homenagem a militares portugueses, mortos durante uma missão no estrangeiro. Ainda que tal tivesse ocorrido num acidente, isso não diminuía o valor do seu sacrifício e a necessidade de o sublinhar da forma mais solene.

Via-se que o ministro estava genuinamente comovido, quando, depois de visitar e falar com os feridos, se deslocou ao local onde estavam os caixões, cobertos com a bandeira nacional. Teve então lugar a cerimónia do "minuto de silêncio". Quando o governante estacou e se perfilou frente a eles, os militares à sua volta fizeram, de imediato, a continência devida.

O ministro deixou-se ficar, num respeitoso recolhimento, um minuto. E, depois desse, outros minutos mais. Protocolarmente, a partir de certa altura, o tempo de expressão de respeito começou a "soar" como excessivo. A maioria do militares, muitos estrangeiros, foram "deixando cair" a continência, mantendo, contudo, a postura de sentido. Um acompanhante do ministro, notando o que poderia ser considerado um exagero no prolongamento do ato protocolar, deixou, baixo, uma palavra ao governante, do tipo: "Senhor ministro, acho que já podemos ir indo..." O homem, porém, não se desformalizava. E só ao fim de um silêncio longuíssimo, de vários minutos, se decidiu a sair de cena.

Na viagem de regresso, o colaborador, simultaneamente para justificar a observação feita e para tentar perceber a razão justificativa da longa pose protocolar do governante, inquiriu, discretamente, por que este não se limitara ao tradicional minuto de silêncio. A resposta do ministro foi esclarecedora: "Então você acha que eu vinha de longe, depois de tantas horas de viagem, e me limitava a ficar ali só um minuto?"

Bem visto!

4 comentários:

  1. história divertida em cenário triste.
    ministro com um bom sentido da economia e valor do tempo.

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  2. Anónimo09:28

    Muito bem visto...
    Quando as cerimónias fúnebres forem também assoladas com as frias relações custo beneficio os minutos de silêncio serão por videoconferência...
    Bem há sempre um senão. manter a todo custo a grande importância do espaço de ilusão do vale a pena morrer assim, porque se afigura um funeral bem frequentado.

    E nós...Mães, filhas,irmâs, amigas, companheiras,and so on...
    Com Isso...

    O silêncio é um bom ator, mas não deixa de ser devastador...
    Isabel Seixas

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  3. O silêncio também ter que ser gerido com parcimónia (que bela palavra!)

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  4. Grande Ministro!
    Pior ainda é o oposto. Ministro designado para assistir a exéquias de um dirigente político estrangeiro e que se balda às cerimónis, trocadas por um pequeno passeio turístico e compra de souvenirs, porque "ninguém me conhece e ninguém vais dar pela minha falta".
    Um funcionário da Embaixada depositou, discretamente, um cartão de visita no local adequado.

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Salamaleques