segunda-feira, 6 de setembro de 2010

"Librairie de France"

Era apenas uma porta com duas montras, um espaço interior reduzido, no Rockefeller Center, a dois passos da 5ª avenida. Quando vivi em Nova Iorque, ia lá, de quando em vez, relembrar a cultura francesa. Os preços eram escandalosamente altos e as novidades de Paris demoravam a chegar e, quando chegavam, era em número restrito de exemplares. Agora, uma pessoa amiga fala-me do seu encerramento.

Um dia, comprei, na "Librairie de France", "Le mort qu'il faut", de Jorge Semprún, com aquela capa discretamente elegante que a Gallimard dá às suas edições. Como a todos nos acontece, ligo a compra de alguns livros a momentos da vida. Esse era um dia de sol de primavera, daqueles que, em Nova Iorque, dão àquele movimento incessante de pessoas, sob o inconfundível ruído de fundo da cidade, um ambiente de "déjà vu" cinematográfico. Recordo, como se fosse hoje, o prazer que tive em assentar arraiais, por algum tempo, à hora de almoço, num banco público, perto do Empire State Building, a iniciar a leitura do livro. E lembro o contraste que senti, ao apreciar o trágico mas belo relato autobiográfico da saída do campo de cencentração de Buchenwald num  cenário como aquele.

7 comentários:

patricio branco disse...

em lisboa salvou-se por um triz, há anos, a excelente, simpática, acolhedora e bem fornecia livraria do instituto franco português que, felizmente, lá continua, na av luis bivar.

margarida disse...

...quem imaginaria que, a partir de uma notícia nos tempos actuais a tocar o banal - o tristemente banal, encerrarem livrarias a esmo, por todo o nosso mundo dito civilizado-, quem diria, pois, surgisse o cenário envolvente de um filme.
Seguimos os passos, ouvimos um tilintar de campainha sobre a porta (algumas livrarias especiais, cheias de magia, têm-o, quanto mais não seja na nossa profícua -e romântica - imaginação), o ar doce e morno do oleroso das madeiras e das milhares de páginas alinhadas em prateleiras suavemente iluminadas), um 'hello, can I help you' servido com um sorriso franco (essa mania de que os nova-iorquinos não são afáveis, não é justa), o encontro do desejo de saber com vontade de bem servir e, retornado ao bulício da estonteante cidade, encontrar uma bolha de paz para entrar no magoado mundo do escritor.

(I)

margarida disse...

(II) - o sistema não aceita texto tão longo... :)


Um mundo devastador de qualquer romantismo, um mundo tão brutal que o obriga a afirmar desalentadoramente « La vie en soi, pour elle-même, n'est pas sacrée : il faudra bien s'habituer à cette terrible nudité métaphysique. »
Sem dúvida, um contraste tremendo.
Mas ouvem-se chilreios, risos de crianças, passos tranquilos.
E deambulam pares enamorados, numa profissão da fé essencial à crença na vida, no recomeço, no futuro.
Isso, mesmo que 'só' isso, abre um sorriso de conforto e esperança.
« Il n'y a rien après mort, la mort elle-même n'est rien. » poderá até ser a cruel verdade, mas enquanto esse abismo não está perante nós, que fazer, se não acreditar na vida e no amor?
Melhor: é fulcral viver-se amando, até por aqueles que não puderam fazê-lo.
Amar, como se fosse uma salvação, e em nome deles, a natureza, a humanidade e o milagre da Criação.
Ler é um modo de o fazer.
E contar essas viagens, abrir horizontes, revelar corações.
Mesmo que atormentados.
Ou estes, em especial, para que o resgate comece.

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

É realmente uma pena o encerramento da "Librairie de France" de Nova York, uma vez que embora haja uma hegemonia da língua inglesa no mundo, não se pode amesquinhar o peso intelectual da Cultura Francesa no mundo.

Certamente, que a Cultura Anglófila está a assumir-se como prevalecente nesta Globalização, mas será uma perda tremenda para a Cultura da Humanidade a perda de visibilidade da Cultura Francesa. Esperemos que este caminho se inverta...

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

Helena Oneto disse...

Há posts que leio duas vezes por prazer. Este é um deles, por multiplas razões. Há comentários que dão, por vezes, cor e corpo a um belo texto. Personne mieux que Margarida le fait.

patricio branco disse...

Já agora, saúda se a continuação da Buchholz em Lisboa, no mesmo sítio e com a nesma decoração, agora Bucholz Leya.
Toda uma história, a dessa livraria e voltarei a ela.
No chiado, num largo cujo nome não recordo, há desde há 1 ou 2 anos uma liv. buchholz
cuja história deve estar relacionada com a antiga, devido ao uso do nome, mas muito diferente daquela outra.

Anónimo disse...

cLARO QUE SUBSCREVO NA INTEGRA A "HELENA Oneto"
Isabel Seixas