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quarta-feira, setembro 08, 2010

Sono

Já não recordava a história, passada há mais de 20 anos. Um amigo, ontem chegado a Paris, que dela foi testemunha presencial, trouxe-ma à memória.

Estávamos num hotel de uma capital africana, integrados na comitiva de um membro do governo português. Nessa manhã, íamos partir para o palácio presidencial, onde o chefe de Estado receberia o nosso dignitário. Toda a delegação estava já no hall, pronta para embarcar nos carros. Toda, não! Faltava o nosso embaixador acreditado nesse país, que, aparentemente, estava ainda no seu quarto. Com o tempo a escassear, via-se que o nervosismo começava a apoderar-se no nosso governante, pessoa que os anos futuros mostrariam ser pouco dada a absorver com bonomia as contrariedades que a vida nos traz.

Tomei a iniciativa de telefonar para o quarto do embaixador. Expliquei-lhe que estava tudo "em pulgas", já com algum atraso, pelo que era urgente que descesse. Como se tivesse à sua frente todo o tempo do mundo, e ignorando olimpicamente a minha observação de que o nosso político estava a ficar furioso, disse-me com a sua proverbial displicência: "Tenham calma! Aqui ninguém chega a horas..."

Cinco minutos depois, desembarcou do elevador, sorridente, aproximando-se da nossa nervosa comitiva. O governante não resistiu e, entre o ácido e o irónico, lançou-lhe:

- Então, embaixador?! Não acordou? Não tinha despertador?

O diplomata, homem há muito conhecido por olhar para as minudências do tempo com a serenidade de quem tem outras prioridades na vida, respondeu-lhe, sem perder o sorriso, quase sarcástico:

- Sabe, até acordei muito cedo. Foi esse, aliás, o problema! Tão cedo era que voltei a deitar-me e, olhe!, adormeci...

E já caminhando para a porta, comentou, comandando a mudança da conversa:

- Belo dia, não acha?

Entre as nossas gargalhadas abafadas e a fúria oficial do chefe da delegação, lá fomos para o palácio. Ainda esperámos.

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