sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Retratos lisboetas (3)

Há uns anos, quando víamos alguém a falar sozinho pela rua, era, com toda a certeza, um "maluquinho".

Os leitores lisboetas com mais experiência (habilidade estilística para evitar o "mais antigos"), recordam-se do "noivo" que subia a Garrett (em frente a esta montra), em passo agitado e traje de cerimónia, de flor ao peito e sonoras frases sem destinatário óbvio. A tradição ligava a personagem a um infausto noivado, cuja não consumação conduzira ao desvario eterno.

Hoje não: para além dos verdadeiros "maluquinhos", que já são uma minoria, grande parte de quantos vemos e ouvimos a falar sozinhos pelas ruas - muitos dentro dos automóveis - são apenas palradores de telemóvel "hands free", com o microfone na lapela, na orelha ou em outros lugares insuspeitados.

Hoje há mais "maluquinhos", ou melhor, não se distinguem uns dos outros...

9 comentários:

Anónimo disse...

Uns atrasados mentais! Enfim…a “geração telemóvel”! Patético! E ridículo! E perigosos, pois fazem-no a conduzirem a viatura. Até ao dia em que a multa máxima passe de 500 para 5.000 Euros. Era muito bem feita! Por mim, utilizo o tlm num espaço de chamada mínimo (os tlms são uma das maiores vigarices de sempre, em termos de uso/custo!), nunca falo num transporte público, “despacho” chamadas se estou na rua, não falo em locais públicos (cafés, restaurantes, etc) e desligo-o às horas de refeições (no meu caso, do jantar, visto nutrir um “desprezo visceral” pelo almoço – só raramente abro excepções). Aliás, nunca me senti fascinado por alguns dos chamados “avanços tecnológicos” (com a excepção do computador e da Net), como IPODs, GPS (prefiro, de longe, o “velho mapa de estradas do ACP, ou Michelin), TLM “avançados” (que fazem de tudo…que pouco, ou nada me interessam, como tirar fotografias, ver a Net, fazer mil e um truques, etc – um tlm para mim tem exclusivamente 4 funções: fazer e receber chamadas, enviar, a contra gosto “sms” e receber “SMS” e pronto! Nem mesmo para despertar. Prefiro um velho despertador (que faz “trim, trim, trim”!). E não tenho, nem quero vir a ter, orgulhosamente, uma máquina fotográfica digital. Ainda tenho uma “velhinha” comprada em tempos em Singapura, uma belíssima Minolta, que continua a tirar belas fotos de…rolo. E reitero aos meus amigos para não me maçarem com envio de fotos por computador. Não tenho, simplesmente, pachorra de as ver. Apago-as no instante em que as recebo. Fotos vêem-se sentado num sofá caseiro, uma a uma, retiradas do tal envelope (amarelo) da Kodak (ou outra). Não há paciência para se estar inclinado perante um computador, todos inclinados e de rabo espetado, a ver as “fabulosas fotos de grande precisão!” Quero lá saber da grande precisão! Prefiro o conforto de como as fruir. Do mesmo modo, irritam-me estes peregrinas indivíduos/as a falar, feitos/as tontos/as rua fora, ou dentro do carro, para o tlm e nós a ter de gramar, ou ouvir, as ditas conversas da treta! Esta Sociedade de consumismo imbecil, de gente incapaz de pensar se aquilo que se adquire se justifica realmente, precisa ou lhe faz falta, de gente que “quer estar a par do momento e da moda” caminha a passos largos para o grotesco. Sim, porque aquilo que temos vindo a observar, como o Post aqui refere, é supinamente grotesco, ridículo, patético e risível. A mim não me apanham com “novas invenções tecnológicas” do género. Ainda outro dia, estava eu naquele “sagrado momento” que para mim constituí o Jantar, entre as 20.30 e as 21.30, quando toca o telefone…o fixo, claro! Tlm está desligado uma vez chegado a casa, de modo geral. Lá fui, a pensar sempre no pior. Quem se atreve a incomodar quem janta, se não por razões sérias? Engano meu. Era um “Call-Center” de um tal Banco Barclays”, onde nunca tive conta, a oferecer-me um cartão de crédito grátis, para fazer despesas até 2.500 euros/mês! Sem me conhecerem, sem saberem se sou um tipo honesto, etc! Quando os sacudi energicamente sublinhando estar “na hora do jantar” (os selvagens desta Sociedade actual não jantam) procuraram aliciar-me com uma oferta de adesão de ou: um GPS, ou um TLM avançadíssimo que fazia tudo e multi tudo, e uma máquina de fotografias digital! Exactamente o tipo de “utensílios” pelos quais nutro fundo desprezo! Ficaram meio mudos (“como poderia eu rejeitar tais ofertas!!! – “pois, porque nada me dizem”, respondi-lhes). Enfim, é este o Mundo em vivemos, da rapaziada que fala sozinha com um penduricalho no casaco, ou ouvido! Uma chatice! Pacóvios da Sociedade dita Moderna.
P.Rufino

Anónimo disse...

Falar sozinho, dependendo do contexto pode ser comunicação intrapessoal.Monólogo...

"maluquinhos"é um rótulo de si interativo e no mínimo ternurento.
Passivel de reciprocidade , do ponto de vista salutogéneo...
Tudo e todos diferente do nosso modelo.
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

Deliciosa habilidade estilística!!!
Pois eu prefiro, de longe, o noivo inconsolável aos palradores de hoje! chacun sa tare...

patricio branco disse...

A fotografia levava a crer que a entrada seria sobre as casas comerciais tradicionais do chiado, em parte desaparecidas, menos uma ou outra, entre as quais a que é mostrada e outra em frente, na mesma rua.
Mas é sobre falar sózinho em voz alta na rua. Passo frequentemente na zona (sempre passei) e a leitura do "retrato" recordou nitidamente o "sempre noivo", homem magro, elegantemente vestido de fato negro, cabelo tambem negro penteado para trás com fixador brilhante. Falava alto e exaltado, a voz era potente, corria essa história da noiva que não lhe apareceu no dia do casamento. Parava tambem à porta da livraria portugal, para dentro. Nunca percebi o que dizia.
Havia outro personagem, esse escritor e tradutor reconhecido, alem de médico, que vociferava furioso contra o regime, irritadíssimo, mesmo sem interlocutores, dentro das livrarias: armindo rodrigues. Debaixo do braço trazia a malinha de médico, possivelmente o estetoscópio. Escreveu depois umas memórias um pouco caóticas, em que dizia mal de muita gente. E tem boa poesia (social).
Quanto à loja mostrada, ainda se vendem lá excelentes produtos.

Unknown disse...

Meu caro Francisco,
essa imagem traz-me grandes recordações, pois a minha mãe trabalhou durante vários anos no Paris em Lisboa.
Também me lembro do tal "noivo" que calcorreava a Rua Garrett para cima e para baixo e com quem me cruzei várias vezes quando, ainda rapaz, ia encontrar-me com a minha mãe à saída do emprego.
Peço-te, por favor, que não desistas destas tuas crónicas deliciosas em que consegues falar de tudo um pouco e que são de leitura obrigatória.
Um abraço.

Blondewithaphd disse...

Hmm... eu falo tanto sózinha... (até me aperceber que falo sózinha, ou nelhor, eu acho que me apercebo, ui, isto não está a sair lá muito bem...)

patricio branco disse...

já agora acrescento que nunca mais me tinha lembrado do "noivo" do chiado (onde vivia? como se chamava realmente? qual o seu destino depois dos anos 70? alguem sabe? como se sustentava?)até ler esta entrada do blogue.
Afinal, a minha memória tinha-o guardado e foi lá buscá-lo, ao arquivo morto, depois de ler a entrada.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador, permita-me a liberdade de lhe dizer que me "parti a rir" - a família também, só de ouvir as minhas gargalhadas - com este seu post e com o comentário do nosso estimado P. Rufino, que teve um "ataque de ancestralidade" e me permitiu sentir que sim, que sou moderna e que até uso o Simplex, pois então!
Agora a sério, lembro-me do Júlio pintor, vestido de negro, cabelo com brilhantina a falar sozinho.
E lembro-me de levar os meus dois rebentos - eram lindos, agora cresceram, paciência - ao Paris em Lisboa e das empregadas, encantadoras, os sentarem no balcão e brincarem com eles enquanto eu via aquelas coisas de casa, lindíssimas.
Acredito que a mãe do comentador Fernando possa ter sido uma dessas admiráveis senhoras!

Meu caro P. Rufino
Quem tem uma Minolta não a larga. Como eu faço com a minha Olympus!
A digital serve para eu pensar que sou bonita e apagar aquelas fotos que mostram que não sou. Ou seja, apago quase tudo, como pode calcular...
A Olympus é a legalidade, a família tradicional, aquela amiga que nunca falha. A outra...bom a outra - neste caso a Casio (que cacafonia!) - é a evasão, a aventura, aquela foto que se olha na intimidade, mas não se guarda e se apaga quando se quer.
No fundo, meu bom amigo, são ambas parte da vida!Ou não?

ARD disse...

Arnaldo, Arnaldo Pereira ou Ferreira, não me lembro bem.
Era pintor e pintava "nocturnos" de Lisboa - daí ser também conhecido por "Pintor da Noite".
Deambulava pelo Chiado, de facto, e muitas vezes alargava o seu espaço até ao Rossio e às Portas de Santo Antão.
A lenda do noivado rompido deve ser apenas isso - uma lenda - mas colava-se-lhe à pele de personagem romântico que o aspecto lívido, sepulcral, acentuava. O discurso também: era apocaliptico, o Mundo estava podre e os seus habitantes também.
Havia quem garantisse que a sua pintura tinha alguma qualidade.