terça-feira, 7 de setembro de 2010

Vestuário

Eu havia jantado com ele, numa passagem breve por Londres. Era um diplomata mais promissor do que o futuro iria confirmar, muito seduzido por uma certa imagem de si próprio e, talvez por isso, algo desatento à substância. Talvez o facto de ser um solteiro de sucesso potenciasse esse seu narcisismo, que se pressentia à distância.

Regressado a Lisboa, encontrei um conhecimento comum, uma pessoa de fora da "carreira". Falámos no diplomata de Londres e ele, cruel mas brilhante, definiu-o nesta "pérola": "Veste-se como ele julga que os ingleses se vestem". Tinha razão.

9 comentários:

Teresa Nesler disse...

E, para bom entendedor meia palavra basta! É fascinante a forma como através destas «short stories», nos leva a visualizar cada um destes singelos episódios, e a imaginar estas ilustres personagens, duma vida tão rica quão fascinante!

patricio branco disse...

Um diplomata português em londres de bowl hat. Porque não? Já houve.
É excelente chapéu, óptimo para o clima e ambiente ingleses. Na city, ainda hoje o usam. "When in london, do like the londoners e em roma sê como os romanos".
Em lisboa os originais ingleses do coco são caros mas as imitações portuguesas são acessíveis.
Quanto à roupa inglesa, sobretudo a masculina, pode ter de facto um estilo e uns padrões que nem os italianos atingem.
Bonita e fresca a ilustração da entrada.

Anónimo disse...

JCE, conhecido politologo,tb é assim: respira e descreve uma Inglaterra que, nem mesmo nos livros mais "tradition", existe. Tenho pena de ter perdido o meu momento semana de risota!

Anónimo disse...

"cruel mas brilhante, definiu-o"...
(FSC:2010)
Expressäo interessante, âs vezes inclui de facto uma vertente de dimensäo pessoal da pessoa a que se reporta.
O vestuärio é uma imagem da roupagem pessoal, ás vezes configura até a identidade, mas pode também relativizar-se "SÓ" a uma qualquer circunstância.
Isabel Seixas

Rita Maria disse...

Delicioso!

PS: No mesmo tom: a minha bisavó costumava dizer de algumas pessoas "ah, como eu gostava de ser quem ela pensa que é".

Helena Sacadura Cabral disse...

Post brilhante e actual que vai muito para alem da diplomacia...

Guilherme Sanches disse...

Caro Embaixador, obrigado por este post, que me dá uma deixa para eu não desperdiçar.

Contornando a essência subliminar central do conteúdo e usando como referência temática apenas a imagem e as palavras escritas, direi que anda por aqui tanta gente mal vestida, que eu me permitia sugerir que fosse vestir-se a Londres.

Londres é já ali, e em Old Bond St., Saville Row, Regent St., Oxford St. ou Brompton Road, por exemplo, eu próprio posso indicar os locais onde se vende lindíssimo vestuário de elegante corte e de qualidade superior. São fatos desenvolvidos e confecionados em Portugal, por técnicos Portugueses, daqueles que ao contrário do outro, sabem como os ingleses se vestem, e vendem a ingleses que sabem porque razões compram em Portugal.

Portugal que prefere maioritariamente exibir qualquer fatela com bandeirinha tricolor na etiqueta, do que um produto nacional de qualidade superior, reconhecida internacionalmente nos locais com prateleiras e cabides onde só cabem mesmo produtos de qualidade.

Qualidade feita por homens e mulheres cujo trabalho é remunerado em Euros portugueses, resultantes da conversão cambial de Libras, que como real mais-valia entram pelas nossas fronteiras, contribuindo ainda que modestamente mas de facto, para o enriquecimento deste nosso País.

País que generosamente dá notoriedade e apoio a pequenos nomes de minúsculos ateliês, engrandecidos nas capas e nas páginas cor-de rosa de revistas de fútil conteúdo, e nas passarelles por onde desfilam vaidades que todos nós pagamos, esquecendo anónimos milhares que produzem uma imagem que hoje é realmente considerada e respeitada além-fronteiras.

Eu penso que o comentário não deveria ser mais extenso nem mais intenso do que o post, mas não consegui dizer menos.

Obrigado e um abraço.

patricio branco disse...

Uma nova leitura da entrada e comentários hoje recordou-me o "alfaiate do panamá" (que boa banda sonora e humor tinha) que nesse país centro-americano fazia excelentes fatos de corte e tecidos ingleses, que tinha aprendido a fazer na prisão em inglaterra.

Helena Sacadura Cabral disse...

Pois o comentário de Guilherme Santos diz tudo o que é preciso dizer. Parabéns!
Já me vou sintir menos sozinha quando der voltas no supermercado para comprar fruta, carne e peixe nacionais!