quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Rádio portuguesa em francês ?

Falar em francês para portugueses? A questão surgiu no domingo, durante o programa "Génération Portugal", realizado no âmbito da rádio RGB, de Cergy Pontoise, animado por Patrick Caseiro e Aida Cerqueira. Ao longo das várias horas de emissão, em que intervim, o francês foi a única língua usada. Alguém acha isso estranho?

Eu não acho. A comunidade de origem portuguesa em França é muito diversa: há quem fale correntemente português, há quem apenas perceba um pouco de português e há quem se sinta muito pouco à vontade a falar ou a ouvir falar a nossa língua. Sendo este um programa que pretende entrar num "mercado" de ouvintes de uma terceira geração de origem portuguesa, que tem o francês como língua comum, considero perfeitamente natural que o idioma utilizado seja apenas o francês. Quanto ao resto - à música, à cultura, aos temas de conversa - tudo foi sobre Portugal, sobre os portugueses. 

Combinei ir falar, no futuro, ao mesmo programa, sobre o tema da língua portuguesa em França.  E vamos ter essa conversa em francês, claro! Essa será uma oportunidade para tentar explicar aos setores da comunidade luso-descendente que não têm o português no seu dia-a-dia as vantagens que a nossa língua hoje lhes pode oferecer. Esse foi, aliás, o mote de um artigo que publiquei este mês na revista da associação de jovens luso-descendentes "Cap Magellan", precisamente sob o título "Porquê o Português?", e que pode ler aqui.

7 comentários:

Jose Martins disse...

“Essa será uma oportunidade para tentar explicar aos setores da comunidade luso-descendente que não têm o português no seu dia-a-dia as vantagens que a nossa língua hoje lhes pode oferecer. – Francisco Seixas da Costa”

Senhor Embaixador,

A língua portuguesa certo e sabido que se encontra decadente no contexto dos países de expressão de língua inglesa e francesa.
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Bem viva e perdurará para sempre (embora transformada a originalidade) nos países, lusófonos, onde é falada.
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As línguas como os impérios caiem e a Lusa não escapou à regra. Talvez a escassa dimensão territorial de Portugal e com a disseminação dos portugueses pelas sete tenha partidas do Globo, tenha contribuído para isso.
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Certo e sabido que a língua portuguesa foi a primeira língua de comunicação do Ocidente com os povos de África, da Ásia e Extremo-Oriente a partir da era da expansão portuguesa no século XIV e manteve-se, praticamente, até meados do século XIX.
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Relações comerciais, tratados entre países da Ásia e Europa e dos Estados Unidos, teria que existir um texto em língua portuguesa.
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Lentamente e conforme a fixação do Reino Unido, França e outros países em territórios onde a língua portuguesa era a única conhecida entra na decadência.
A língua inglesa e a francesa tomou lugar à portuguesa.
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A independência dos territórios, ultramarinos, administrados por Portugal,depois de 1974 e a saída de milhares de portugueses e seus filhos já ali nascidos foi um rude golpe para a nossa língua.
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Mas outro drama na perda da identidade da língua portuguesa surge no nascimento de filhos de portugueses nos países onde se encontram fixados e ali têm suas vidas formadas; seus filhos são educados nas escolas desses países porque será neles que vai continuar o seu viver futuro.
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Porém quando essas crianças são nascidas de mulheres portugueses, fica com elas a língua da “mama”, unicamente para a falar entre a família ou nas comunidades e clubes que os antigos emigrantes criaram como ligação à Pátria e matar a saudade entre eles.
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Agora quando os filhos de homens portugueses nascem de mulheres desses países ou mesmo de outras nacionalidades essas crianças articulam algumas palavras da língua lusa.
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De facto existem professores, enviados, pelo Instituto Camões para esses países para ensinarem a língua portuguesa, mas poucos frutos têm sido conseguidos, porque as relações comerciais de Portugal são parcas e quem aprendem uma língua é para dela tirar proveito e não pela vaidade de acrescentar à sua mais idioma.
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Temos um exemplo e dada à expansão comercial da China com os países lusófonos, este país encontra-se activo em formar jovens na aprendizagem, preliminar, da língua portuguesas como elo de ligação nas transacções comerciais e culturais.
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As velhas gerações de portugueses fixadas em países de acolhimente não tardam a desaparecer e as que se lhes seguem deixa para eles, a língua portuguesa, ter significado, mas importante a do país onde jão são ciadadãos e governam a vida.
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Não tenhamos ilusões a língua lusa foi-se nesses países e será a deles que deverá ser usada e falando da portuguesa.
Saudações de Banguecoque
José Martins

ARD disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ARD disse...

Concordo absolutamente com o uso de línguas estrangeiras, sobretudo do inglês e do mandarim, para promover o uso do português.
A língua portuguesa, a quinta mais falada no mundo, a terceira de origem europeia com maior expansão universal e uma das que mais cresce, vai ser (isto é quase uma inevitabilidade)uma das mais importantes línguas de cultura e de negócios dentro de poucas décadas.
O português é, a par do espanhol e do chinês/mandarim, a língua veícular emergente.
Basta pensar, como costuma lembrar um colega e amigo brasileiro, que, pelo simples correr do tempo, só o Brasil "produz" por ano 5 milhões de novos falantes de português por ano, número que é o saldo positivo entre nascimentos e mortes naquele país.
Junte-se a essa a pujança demográfica de Angola e de Moçambique, que escolarizam em português cerca de 5 outros milhões de crianças e constataremos que não haverá receios quanto ao futuro da língua.
Outro aspecto: os habituais profetas da desgraça encheram a boca, durante anos, com o fantasma do avanço do francês na Guiné-Bissau e do inglês em Moçambique; a realidade trocou-lhe as voltas (a notícia da morte da língua era muito exagerada) e hoje verifica-se que não só é o português que cresce nesses países como o português cresce nos mais populosos e influentes países dessas regiões, como o Senegal e a África do Sul, onde o ensino do português vai de vento em popa.
O futuro está também na utilização do português/segunda língua; mais uma razão para não temer - antes promover - as outras grandes línguas universais, entre as quais não se contam, por exemplo, o russo, o alemão ou o italiano.
É por isso que o programa de que fala, ao despertar os jovens de origem portuguesa que perderam o domínio do idioma a voltar a desejá-lo e a perceberem o seu potencial, revela uma inteligente utilização de um instrumento de comunicação essencial.
Dou os parabéns à RGB de Cergy Pontoise, aglomeração que conheci bem, em tempos que já lá vão.

Anónimo disse...

Gostei muito do que aqui li, deveras!
O sr Embaixador reteve a nossa atenção qt ao uso do francês como "lingua-passaporte" para a transmissão da cultura lusofona em França. E muitos serão aqueles que irão a posteriori ter sede de mais, de conhecer o nosso belo pais, de se expressar progressivamente no nosso belo idioma... afinal, todos nos devemos ser "pequenos embaixadores" no quotidiano.
Parabéns!

Julia Macias-Valet disse...

"Falar em francês para portugueses ?"...pronto... esta bem...mas eu acho que é assim um bocadinho com quem poem um chocalho a um porco : (

Mas se o senhor embaixador acha, quem somos nos para contrariar...afinal todos os meios sao bons para tentar levar a agua ao seu moinho.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Permita-me uma pequena nota sobre o título do post: o Senhor Embaixador não falou para Portugueses. Falou para os ouvintes da RGB (entre os quais também há Portugueses).

Por isso, nada mais natural do que falar francês. Se falasse português, a maior parte dos ouvintes não entenderiam.

Eu estou consciente da importância histórica da língua portuguesa, mas se falar em Português para quem não me entender,... não servirá de nada. E pelo que sei, a intervenção do Senhor Embaixador na RGB serviu para qualquer coisa... E parabéns por pensar em voltar.

Carlos Pereira

josé barros disse...

Na década de 70, quando participava na redacção de um regulamento interno para o funcionamento de uma associação prevenia-se que a dita associação deveria exprimir-se sempre em português mesmo se com o tempo viesse a ser necessário uma tradução para os que eventualmente não compreendessem a língua Lusa... Na mesma época, em debates na defesa das línguas de origem e pela reivindicação de uma França “Multicultural” afirmei com muita convicção que mesmo dali a trezentos anos a língua e cultura portuguesas continuariam a manter uma expressão viva aqui em França. O moderador de então, André Jeanson, Presidente de um colectivo de defesa das línguas de origem dos imigrantes achou os meus ânimos empolgantes um tanto exagerados! Pouco mais de três décadas depois verifico que, de facto, exagerava... Mas a minha vontade em manter a nossa língua para nós e para os nossos filhos (e também para os vindouros) estava ali.