sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Duas cidades

"O 11 de Setembro de 2001 não derrubou apenas o World Trade Center e uma ala do Pentágono. Fez ruir também o sentimento de confiança que a América mantinha na sua própria intocabilidade, com profundas consequências no modo como a maior potência olha hoje o mundo e o seu papel dentro dele.

Uma das grandes linhas divisivas que afectam a política mundial prende-se precisamente com a impossibilidade, para a Europa, de interiorizar o sentimento de profunda angústia que hoje atravessa a América, face à sua inesperada impotência perante perigos de contorno desconhecido. E isso tem consequências com expressão política, num país onde a agenda pública segue de muito perto o sentimento colectivo, muito em especial quando este coincide com os grandes interesses estratégicos.

Desde há muito, a Europa habituou-se a viver com o perigo. Teve duas guerras trágicas no seu seio, sofreu o nazi-fascismo, os temores da Guerra Fria e os “anos de chumbo” das acções radicais extremistas. Os europeus têm consciência da sua própria fragilidade, mas convivem com ela com alguma naturalidade.

Para os Estados Unidos, o mundo exterior sempre fora um lugar perigoso, de que faziam uma caricatura à medida da suas vivências internas. E se a segurança interna não conseguira prever alguns actos tresloucados, os riscos políticos profundos estavam afastados do quadro de probabilidades, com a rede securitária concentrada na criminalidade, com a droga como inimigo público.

Tive a experiência de viver em Nova Iorque, antes e depois do 11 de Setembro. É sabido não ser a cidade americana típica. Alguém dizia que os europeus sempre tiveram Nova Iorque como a sua principal imagem da América, enquanto, pelo contrário, para a generalidade dos americanos, aquela cidade aparece já como uma espécie de primeira aproximação à vida europeia. Mas, talvez por isso, estando Nova Iorque “mais próxima” de nós, talvez a mudança da atitude de vida nessa cidade nos seja mais perceptível. E a ideia que me ficou do pré e do pós-11 de Setembro é que vivi em duas cidades diferentes.

Fui a Nova Iorque, pela primeira vez, há mais de 30 anos, com o World Trade Center por acabar. Daí para cá, visitei a cidade várias vezes, dela sempre recolhendo a mesma matriz trepidante, palco da ambição individual, de alguma agressividade egoísta, mas com uma indefinível cordialidade, com a assunção de um escasso número de regras de convivência urbana como chave para nos sentirmos em casa.

Em 2001, quando fui viver para Nova Iorque, a cidade recuperara o usufruto pleno de muitas zonas para os seus cidadãos, por virtude da queda do desemprego e de um eficaz combate à criminalidade. Passear à noite, em antigas “no-go areas”, tornou-se rotina. Restaurantes e galerias apareciam e desapareciam no West Village e em Chelsea, com as esplanadas cheias e um ar de prosperidade geral, embora distante do auge do Nasdaq.

Como em todas as sociedades em que a precariedade do vínculo laboral é a lei que reflecte as crises, Nova Iorque reagiu ao 11 de Setembro com brutalidade. Desemprego, encerramento de actividades e retracção de consumo, com a queda vertical do turismo e o afundar temporário da Broadway.

E, também, com a emergência da angústia com a segurança, que nunca mais terminou. Foram os tempos do “antrax”, das ameaças constantes das “dirty bombs”. Os novaiorquinos passaram à “vigilância popular”, a olhar o vizinho, o “diferente” como uma ameaça potencial. O uso da bandeira americana passou a factor de credibilitação, nas lapelas, nas portas ou nas montras, com os não seguidores da regra a serem vistos com anti-patriotas. O “nine-eleven” (fórmula americana para o 11 de Setembro), o terrorismo, Bin-Laden e Al-Queda monopolizaram os discursos, com uma comunicação social marcada por um jingoísmo que abafava reticências.

Com o 11 de Setembro, aprendi que os americanos estão dispostos a sacrificar o mais sagrado da sua liberdade – e poucos povos haverá com um sentimento de liberdade mais arreigado – em favor da restauração, ainda que limitada ou mesmo virtual, da sua própria segurança. Por muitos e menos bons tempos, a América está prisioneira de si própria, pelo temor e pela desconfiança. Mas América que eu conheço e admiro vai, estou certo, conseguir fazer sair o país desta psicose colectiva. E todos ganharemos com isso."


Nota: Este texto foi publicado no "Jornal de Notícias" em 11 de Setembro de 2003. Embora datado, achei que podia ser interessante recordá-lo hoje.

9 comentários:

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

O 11 de Setembro de 2001 foi sem dúvida uma página da História Universal que se viu escrita a sangue... Lembro-me de estar na Biblioteca Nacional de Lisboa e de estar a falar com um amigo, entretanto infelizmente desaparecido este ano, que me disse que estava a ver incrédulo o WTC a ser atingido por um avião. Não pude acreditar e fui para casa ver as notícias e acabei por ver estupefacto, o que todos pudemos ver...

O colapsar do WTC e de parte do pentágono mostrou como diz ao mundo a vulnerabilidade das grandes potências. Aliás, para mim, ao contrário de muitos amigos da minha geração para quem a nação Norte Americana era ainda o "El Dourado", este mito do "American Way of Life" sempre me pareceu uma ilusão caleidoscópica a que muitos andavam agarrados.

Nunca me identifiquei muito com a distintíssima visão do grande pensador Alexis de Tocqueville que, no século XIX, retratou os EUA como o país por excelência da liberdade.

Sempre compartilhei mais o modo de ver de Noam Chomsky que vislumbrou o povo Norte Americano como materialista, egoísta e individualista que potenciou que as rédeas de R. Reagan, Bush pai e Bush filho levassem esta nação a uma violenta crise de auto-estima que começou com o 11/9/2001 e se prolongou até à crise capitalista despoletada pelas fraudes financeiras descobertas na esteira de Bernard Madoff.

Para mim os EUA estão muito longe de servir de paradigma Civilizacional. Tornaram-se mais modestos e mais prudentes com B. Obama é certo, mas precisam de se concentrar mais na casa comum, da Humanidade que é o nosso planeta, se se querem ver reconhecidos como autoridades morais!

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

ECD disse...

O texto é excelente. Todavia, não se resiste a que lhe seja "perguntado": o 11 de setembro de 2001 atirou para o caixote o 11 de Setembro de 1973? Numa escala, é certo, mais pequena e com efeitos devastadores sobretudo para os "paises subalternos", o golpe de Pinochet veio mudar muita coisa...

patricio branco disse...

Um ataque traiçoeiro como o das torres gémeas é altamente traumatizante para um país, mas sem dúvida que une os cidadãos americanos na determinação de lutar contra o terrorismo e de defender a sua liberdade e democracia, que são reais.
O artigo podia ter sido escrito hoje, não está datado, a data sabe se ao ler no fim a nota de rodapé

Carlos II disse...

Caro Nuno Sotto Mayor Ferrão

Se a visão de Noam Chomsky sobre os US é a que diz e que é o seu modo ver,afinal não são defeitos, são mais virtudes.
Um povo de emigrantes que parte para uma terra de ninguém e que em pouco tempo se torna a potência que conhecemos, aqueles defeitos só podem ser virtudes.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro ECD: Peço a sua atenção para http://duas-ou-tres.blogspot.com/search?q=chile e para http://duas-ou-tres.blogspot.com/2009/09/11-de-setembro-de-1973-chile.html. Eu não costumo ter lapsos de memória política

Anónimo disse...

"Fez ruir também o sentimento de confiança que a América mantinha na sua própria intocabilidade."In FSC

Além de que o ajuste de contas continua pelo caminho...

Como um mero processo de heterocanibalismo sustentado em atavismo onde a razão simplesmente se Perdeu.

O povo não é o verdadeiro protagonista mero figurante que tem a noção clara da mortalidade anunciada tanto faz mais cedo ou mais tarde...

Os outros são viciados no jogo e simplesmente arrastam-nos, sem contemplações...
Isabel Seixas

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo amigo Carlos II,

Parece que divergimos mais uma vez. Em parte tem, aparentemente, razão relativamente à formação dos "US" que se constituiu como nação devido aos ideais de liberdade de muitos indivíduos que se revelaram audazes e empreendedores.

Se é certo que na primeira metade do século XX houve Presidentes Norte Americanos com apuradas sensibilidades sociais e senso ético (por exemplo W. Wilson ou D.F. Roosevelt ), na segunda metade do século XX destacaram-se mais os Presidentes com perfis menos sérios ou mais aguerridos, embora se possa encontrar uma ou outra excepção. Em todo o caso, Os EUA tornaram-se o símbolo da sociedade da abundância com um enfraquecimento claro das virtudes espirituais e éticas.

Aliás, podemos traçar um paralelo interessante entre o paradigma Civilizacional Norte-Americano e paradigma Civilizacional que os Romanos ergueram na Antiguidade Clássica que desembocou numa forte Crise Ética como se verifica actualmente com os EUA como o sublinhei no meu anterior comentário.

Não se iluda caríssimo amigo Carlos II, pois o princípio do "salve-se quem puder" é a lógica do darwinismo social que não permite sociedades coesas, solidárias, com sentido Ético e defensoras de espiritualidades criativas.

A lógica do "Super-Homem" de Friedrich Wilhelm Nietzsche levar-nos-à a uma Civilização que mergulhará no Niilismo Ético. Não concebo que seja este o paradigma para uma Humanidade mais feliz, socialmente mais justa e mais pacífica!

Deixo a minha homenagem às vítimas inocentes da tragédia de 11 de Setembro de 2001 que merecem que lutemos por um mundo melhor onde estes horrores não voltem a ser possíveis! Só podemos tentar evitar que se repitam novos Holocaustos, novas guerras mundiais, novos 11.9.2001 se houver bom senso da parte dos líderes e dos povos e um paradigma Civilizacional que se distinga pelo primado da Ética e da sensibilidade solidária através de uma ONU com poderes reforçadas.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt

ECD disse...

Dou a mão à palmatória! E como o do post "Duas cidades" dois excelentes textos

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa,

Fiz link para Crónicas do Professor Ferrão. Pois este seu lúcido texto, bem como os comentários que teci suscitaram o meu último "post".
Muito obrigado.

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo.pt