Aquele antigo primeiro-ministro estava já, como se costuma dizer, um pouco a "cair da tripeça". Era um homem cordial, sempre sorridente, mas a idade não perdoava e ia-lhe afetando visivelmente a memória.
De há muito que, sempre que encontrava o nosso embaixador, tinha para ele um sorriso simpático, uma palavra agradável, um gesto amigo. O diplomata português, com toda a naturalidade, ficava satisfeito com essa recorrente manifestação de amabilidade e não perdia uma ocasião para saudá-lo.
Um dia. numa receção, o embaixador avistou o velho político e, arrastando consigo dois dos seus colaboradores, decidiu atravessar a sala e ir cumprimentá-lo. O antigo primeiro-ministro olhou-o com um largo sorriso, deu-lhe um abraço caloroso e, crendo, com isso, estar a fazer um gesto de extrema cordialidade, perguntou-lhe: "E então, diga-me, meu querido amigo, como vai a Espanha?"
O nosso diplomata, homem incapaz de se descompor, pressentindo o lapso do seu interlocutor, mas não o querendo contraditar de forma aberta, retorquiu: "Muito bem, senhor primeiro-ministro, muito bem. Pelo menos, essa é a perspetiva que nós, lá em Portugal, vamos tendo..."
