sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mandelson

Irrita-me o hábito de ir, a correr, comprar os pré-anunciados "best sellers", como se eles nos fugissem ou tivessemos a obsessão de comentá-los antes que outros os leiam. Há anos que tenho a reação automática de só os adquirir e vir a ler alguns tempos mais tarde (faço uma exceção com alguma banda desenhada, confesso). É o que vai acontecer com o "A Journey", de Tony Blair, que espero apreciar, com calma, lá para outubro.

Para já, ando deliciado com o monumento de genial egocentrismo (a começar pelo título) que é o "The Third Man", de Peter Mandelson, uma figura marcante na história no "New Labour", lado a lado com Blair e Gordon Brown. Mandelson esteve nos governos de ambos, com altos e baixos no seu percurso político interno. É, sem a menor dúvida, uma figura de excecional inteligência e agudeza, às vezes prejudicada por alguma impulsividade e tendência para dizer mesmo o que pensa. Retenho este magnífico pedaço de auto-análise: "Contrariamente àqueles que, em política, são capazes de ir com as marés, eu não sou uma figura neutral. Não me lembro de um momento em que não tenha estado a lutar por alguma coisa ou contra alguma coisa, ou, simplesmente, a lutar contra o tumulto que sobre mim desabava. Embora seja capaz de mudar de opinião, eu raramente deixo de ter uma opinião". 

Curiosamente, talvez mais do que na política interna, foi como comissário europeu que Mandelson se destacou e se afirmou, com uma excecional capacidade de gestão dos dossiês, embora com duvidosa eficácia no saldo diplomático das negociações em que se envolveu. "For the record", deixo aqui a apreciação que, no livro, faz ao "estado da arte" da União Europeia, ao tempo que por lá passou:

"O meu papel como comissário para o comércio deu-me um muito maior grau de autonomia do que o de muitos dos meus colegas da Comissão, mas, desde os dias gloriosos de Jean Monnet e Jacques Delors, a Comissão, como um todo, foi progressivamente perdendo poder, quer para o Conselho de Ministros, que representa os Estados membros, quer para o Parlamento Europeu, e isso foi acentuado com a aprovação do Tratado de Lisboa. Tudo isto conduziu a um enfraquecimento da União Europeia em geral, porque era tarefa da Comissão observar e proteger a dimensão europeia em cada área das políticas (comunitárias), e fazia isso de uma forma mais consistente e dedicada do que o Parlamento ou os Estados membros individualmente. Pelo contrário, o Conselho (de Ministros) tentou reclamar de volta mais poder para si próprio e o Parlamento estava já longe de ser uma mera instância declaratória: tinha adquirido reais "dentes" legislativos".

Ver isto dito por um britânico é a prova de que, também estes, às vezes, "go native".

1 comentário:

patricio branco disse...

O costume de escrever e publicar memórias, autobiografias, diários que existe na inglaterra, australia, eua, por figuras da vida politica ou escritores, actores, mesmo desportistas, é algo de bom para a memória dos paises. Clintos publicou as suas memórias, agorat blair, p mandelson e tantos outros, quase todos. Algumas são bem escritas, outras formais e de obrigação, outras uma autojustificação, outras escritas em grande parte por ghost writers que ajudam e arrumam o material que lhes é fornecido.
Pena que não exista o costume em Portugal: mario soares poderia ter escrito umas excelentes memórias da sua vida (a ver pelas parciais de "Portugal amordaçado",1973)
Ramalho eanes e jorge sampaio não o fizeram; manuel alegre não fez (que depois das eleições as escreva que ele sabe escrever bem, marcelo rebelo de sousa igual igual. E bons actores que tivemos, quase nenhum escreveu memórias (fernando gusmão sim).
e de escritores, quais? temos uma excelente autobiografia de aquilino ribeiro agora republicada, umas curtas páginas de saramago e pouco mais.
será que os portugueses não gostam de falar sobre si próprios?
Tudo isto vem devido à entrada do blogue sobre as memórias de mandelson, interessantes segundo FSC e com um maravilhoso título.