segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O custo da vida

É de todos os tempos. Ficar isolado numa conversa cruzada, durante um jantar oficial, mantida entre vizinhos situados à sua esquerda e à sua direita, é uma situação inconfortável, particularmente se se tratar de uma mesa longa, em que não dê para falar com um terceiro parceiro. Se a educação dos vizinhos o permite, ou se a nossa imaginação conseguir descortinar uma aberta, pode ser que tenhamos oportunidade de entrar na charla, embora, às vezes, um tanto "à bruta" ou a despropósito.

Aquele diplomata estava a passar horrores, num jantar chato e longo. Quase desde o início, as suas duas vizinhas, desinteressadas dos comparsas que tinham do seu outro lado, mantinham-se a falar entre si, inclinadas para a frente. Conferiam preços, falavam do custo de vida. De início, o diplomata fez de conta que estava interessado naquele tráfego de custos, olhando alternadamente para as suas companheiras de mesa, qual árbitro de um jogo de ping-pong. Mas os números continuavam a fluir, em torno de produtos completamente alheios ao seu círculo de interesses: alimentação, higiene e roupa de senhoras eram temas escalpelizados ao cêntimo, com informações detalhadas sobre os locais de compra mais favorável. Mas, no geral, a queixa assentava na exorbitância do custo de vida local.

A certo passo, o diplomata "encheu-se" e não resistiu:

- Têm toda a razão. Isto está "pela hora da morte". Já nada é barato! Sabem o preço dos leões?

As duas "gralhas" silenciaram de surpresa e o nosso homem prosseguiu:

- Pois fiquem a saber que um leão jovem custa hoje 100 mil dólares! Pensarmos nós que, há meses, se comprava o mesmo leão por 30 mil...

E o nosso diplomata continuou, detalhando o preço dos macacos, dos canários, das galinhas-de-angola, etc.

As vizinhas calaram-se, finalmente.

Li esta história num livro que vivamente recomendo: "Os bastidores da diplomacia", de Guilherme Leite Ribeiro, um diplomata brasileiro com boa escrita e humor.

14 comentários:

Anónimo disse...

Pois fiquem a saber que um leão jovem custa hoje 100 mil dólares!

Bem... Mau!
Em Alvalade consegue um preço mais ...Módico?!
Dada a relação preço qualidade.
Isabel seixas

Guilherme Sanches disse...

Caro spor..., digo, caro Embaixador

Esta história tem piada, é uma boa lição, mas deve ter acontecido há muito tempo.

Como os leões eram caros!

Penso que o seu preço, por estes tempos, será muito mais baixo. Leões, Águias, e Panteras nem se fala, para mal dos meus pecados...

Um abraço

Helena Sacadura Cabral disse...

Senhor Embaixador
Quando aqui venho logo de manhã, ganho o dia. O que eu gargalhei com a história dos leões e o comentário da "nossa" Isabel Seixas!
A continuarem assim tão em conta, até eu compro um, para rugir a algumas criaturas que conheço...
Nem sei porque é que o governo ainda não pensou nisso. Dava-lhe um certo jeito...

Anónimo disse...

De facto, os tempos são outros. Hoje seria bem improvável que o episódio se repetisse. Para além da lei o não permitir, já ninguém dá nada pelos leões. Nem em saldo.

Não lhe é comum expor assim o flanco (aliás, é raríssimo), mas desta vez pôs-se mesmo a jeito…

JR

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro JR: sugere que eu troque o leão por uma águia? Tenho dúvidas: reconheço que os preços destas sobem em flecha (em anos raros), mas, depois, descem vertiginosamente na maioria dos restantes, muitas vezes depenadas ao longo do ano, outras queimadas pelo bafo do dragão, deixando um cheiro (sabe-se lá porquê...) a pneus queimados.

Helena Sacadura Cabral disse...

Deliciosa essa do cheiro a pneus queimados, Senhor Embaixador!

Mônica disse...

Eu venho aqui por que gosto de ler o que escreve, pelo sotaque, parece até que estou em Portugal , mas não entendo patavina.
Só sei que relamente jantar em um lugar assim é horrivel, nossas festas sem diplomacia é cheia de barulho.
com carinho MOnica

Anónimo disse...

Gostei dessa do: “…outras queimadas pelo bafo do Dragão (com D maiúsculo já agora)…”
P.Rufino

Julia Macias-Valet disse...

Nao quero ser desmancha prazeres...mas nao estou achando grande graça ao vosso humor verde ! : ((

Cunha Ribeiro disse...

Sr Embaixador:

O estilo é tão gémeo do seu que eu apostaria dez águias contra onze leões como o autor se chamava Seixas da Costa, não fosse a advertência final.
Seja como for peço-lhe que insista em escrever textos assim, onde perpassa o suspense "hichcocqueano", a fluência de Eça, e a novidade criativa de Seixas da Costa.

Cunha Ribeiro

Guilherme Sanches disse...

Este Blog tem uma caraterística interessante - lê-se, mas não fica lido. Vale sempre a pena vir cá atrás reler, porque há sempre surpresas.

Neste caso, melhor do que o próprio post do Embaixador FSC, só mesmo a participação do comentador Francisco Seixas da Costa.

Do melhor, meu caro. Do melhor.
Um abraço

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Cunha Ribeiro: Acertou! A escrita é minha, a história é de outro.

cunha ribeiro disse...

Caro Embaixador,

Eu bem me parecia...

Vicente Mais ou Menos de Souza disse...

Madame de Montespan, tornara-se uma poderosa amante de Luis XIV. O primeiro Duque e Par do Reino de França ia a entrar em Versailles com a Duquesa e ao cruzarem-se numa porta estreita que dava para a Sala dos Espelhos, Madame de Montespan passa à frente, garbosa e generosa nos decotes.

O Duque escandalizado e chocado por não ter sido respeitado o protocolo e não ter sido dada ao casal ducal a precedência que lhes competia, perguntou-lhe se ela realizara o desrespeito que lhe fizera, a ele o Duque mais importante de França e fazedor de vários Reis. Ela respondeu que também os sabia fazer e que nesse momento levava um futuro rei dentro da barriga!