quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Pedras Frustradas

Sob o título deste post, publiquei ontem no "Jornal de Notícias" o seguinte artigo:  

"Durante muitos anos, Pedras Salgadas foi do que havia de melhor em matéria de parques termais portugueses. Entretanto, os tempos mudaram, o “charme” termal entrou num certo declínio e, apenas nos últimos anos, se registou, um pouco por todo o país, a recuperação de alguma da antiga vitalidade do sector.

Nem todas as estâncias termais tiveram, contudo, a mesma sorte. As Pedras Salgadas arrastaram-se, por algumas décadas, num processo de mera sustentação, a qual, no entanto, dava alento económico à vila e conforto sazonal ao seu comércio. A empresa das “Águas das Pedras”, nas gestões de Souza Cintra e Jerónimo Martins, mantiveram um mínimo de capacidade hoteleira local – que é a condição absolutamente essencial para a sobrevivência desse parque termal.

Uma luz emergiu ao fundo do túnel com o projecto, anunciado pelos novos proprietários das “Águas das Pedras”, a UNICER, da recuperação do balneário e do parque, assente na construção de um novo hotel, que iria ser uma obra de Álvaro Siza Vieira – e cuja designação teria, aliás, o próprio nome do arquitecto. A obra enquadrava-se no projecto Aquanattur e surgia como a contrapartida pelas vantagens da exploração do rentável negócio das águas. Os autarcas locais e, inicialmente, grande parte da população, logo se entusiasmaram com as perspectivas de desenvolvimento que daí poderiam advir, que a propaganda da UNICER espalhava aos quatro ventos.

Depois, veio uma nova administração da UNICER, logo seguida de uma dura realidade: a empresa não apenas encerrou o único hotel então existente como passou, de forma escandalosa, a violar todos os prazos de execução de obras a que, sucessivamente, se ia comprometendo, sob uma inexplicada complacência da AICEP – à qual, em princípio, competiria exigir tal cumprimento e a denúncia dessas violações temporais.  

Há cerca de um ano, sob pressão de um movimento cívico local, que reclamava desses recorrentes atrasos, a actual administração da UNICER anunciou, em comunicado, que, até ao fim de Maio de 2010, iria apresentar o projecto do tal novo hotel, desenhado por Siza Vieira, cuja construção se iniciaria (finalmente!) em 2011. Maio já lá vai há muito, nenhum projecto surgiu e – posso garanti-lo! – é completamente falso que Álvaro Siza Vieira tenha entre mãos qualquer projecto encomendado pela UNICER.

Cansada de esperar, a população das Pedras Salgadas vai sair para a rua, no dia 23 de Setembro. A UNICER – cuja excepcional saúde financeira não lhe permite utilizar o argumento da “crise” – será agora obrigada a explicar o verdadeiro logro em que tem mantido a população das Pedras Salgadas." 

Se estiver interessado noutros textos aqui publicados sobre este tema, clique, abaixo, em "Pedras Salgadas" no Marcador deste post. 

13 comentários:

Jose Martins disse...

Senhor Embaixador,

Conheço mal as termas de Pedras Salgadas, mas conheço a água, engarrafadas em garrafas de litro e de ¼, muito popular no Porto na altura que me iniciei na ocupação de marçano (1946) e carreguei no “lombo” algumas caixas de 12 de litro e 24 de ¼, do depósito, no desaparecido Largo da Cancela Velha (termo da Rua Formosa com o Bonjardim), para a rua do Loureiro cuja loja onde exercia funções era agente.
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Não sei se a fonte está inactiva, ou se ainda a excelente água, popular e digestiva continua a ser engarrafada e colocada no circuito comercial.
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A Água das Pedras era tal forma apreciada no Porto e arredores cuja esta, nas “tascas”, era vendida misturada com vinho.
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Depois de uma boa “tripalhada” e a pessoa empanturrada um quarto de Água das Pedras era o suficiente para terminar com a indisposição.
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Uma água que bem poderia, dado às suas propriedades, ser exportada para o estrangeiro, como os franceses exportam a Evian para todo o Mundo, inclusivamente, para a Tailândia onde resido.
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O AICEP foi vinha que produziu muita parra e pouca uva.
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Os que tiveram a fraca ideia de o criar, rasparam-se e quem por lá ficou, sonhou com o impossível de poder realizar.
Saudações de Banguecoque
José Martins

José Martins disse...

Já demos o devido eco em cima do protesto com imagens. Pode ser visto no endereço

http://aquitailandia.blogspot.com/2010/09/o-povo-de-pedras-salgadas-vem-para.html

Lebasiaifos disse...

O que seria de nós, portugueses, sem uma água das pedras! Verdadeiro símbolo da identidade nacional...
Para Angola exportam-na e não deve ser em pouca quantidade. Como não bebo café, sempre que vou a uma esplanada peço uma água das pedras...
Construam o hotel!

Isabel Sofia

Anónimo disse...

Pois!...

Continue Francisco.

Carlos Falcão

Anónimo disse...

Ora exatamente, não conformadas.
" Quem come a carne... "

Agora a População e os Seus lideres estão de parabéns pela firmeza e persistência na luta.

Então construa-se o hotel e não só

O prometido é devido
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Um dos Telejornais desta noite falava sobre o assunto, dando relevo à manifestação que protestava contra aquela situação. Tudo isto é lamentável! Faz muito bem em recorrentemente abordar a questão.
P.Rufino

Anónimo disse...

Como é possível que a localidade que tem a melhor água do mundo tenha um fraco desenvolvimento económico-social?

Cunha Ribeiro

Anónimo disse...

Há pedras rolantes
pedras filosofais
pedras lascadas
pedras vaticanais
pedras indigestas
"pedras salgadas" só há "UMA".

Abraço termal.

Guilherme

Anónimo disse...

Esta fotografia do casino é nitidamente do meu tempo.
obrigada. é linda hum e tão inspiradora...
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

"a violar todos os prazos de execução de obras a que, sucessivamente, se ia comprometendo, sob uma inexplicada complacência da AICEP"...
O mesmo se pode dizer sobre tantas outras obras interminadas em Lisboa sob uma inexplicada complacência da Câmara ou do Estado! O que se passa em Pedras Salgadas -e no país em geral- é absolutamente AFLITIVO!!!

Anónimo disse...

PEDRAS SALGADAS são hoje um quasi mito referencial da minha infãncia e juventude, e acredito que também da sua, caro Embaixador, pelo estado de abandono a que as sucessivas promessas não cumpridas por parte dos 3 principais promotores das últimas décadas a devotaram até hoje.

A actual luta das gentes da terra faz todo o sentido, pena não ter sido iniciada mais cedo, e a visibilidade que o Senhor Embaixador lhe tem procurado proporcionar são um excelente prenúncio de que ainda terá de haver futuro.

Paradoxalmente, o problema das PEDRAS SALGADAS são as suas excelentes águas termais as quais, fonte barata de uma imensa riqueza, não carecem nem exigem muito mais que um cano e uma torneira, já que o resto, que é muitíssimo como sabemos, passando pelos edifícios do Balneário aos dos Hoteis, até aos do romântico Salão de Chá e ao do Casino, para já não falar do património vegetal único, isso, tudo isso, não permite o retorno imediato que se quererá.

Abraço
João Queiroga

jborges disse...

Dia 23 de Setembro ,tive um sonho , um sonho lindo ... Eram 11 horas da manhã , por fracções de segundos sonhei que a minha linda e maravilhosa vila tinha regressado á aldeia termal mais famosa de Portugal .Os hotéis,a casa de chá o casino estavam a funcionar . Os aquistas esperavam pela toma da sua água em filas demoradas, pois eram estes em grande número .As Pedras e todas as aldeias circunvizinhas tinham vida, não havia desemprego .De repente acordei e infelizmente a realidade era outra ´.Tinha um nó na garganta e lágrimas a escorrer-me na face , estava junto á fábrica das águas das pedras no meio duma multidão revoltada e a gritar-mos Pedras unidas querem promessas cumpridas . Esta é a realidade .Não temos hotéis ,casa do chá , casino,enfim... tiram ouro líquido do nosso subsolo e dão-nos ruínas daqueles que outrora foram lindos e deslumbrantes edifícios os quais gerações teimaram até ao fim dar-lhe vida fazendo a sua época termal nas nossas pedras .Estou convicta que a nossa luta faz sentido ,embora reconheça que um pouco tardia . Obrigada senhor embaixador por denunciar esta realidade .Sei que laços muito fortes o unem ás Pedras -Bornes de Aguiar - ,tomo a liberdade de apelar a todos os que por um motivo ou outro Pedras Salgadas lhes diz algo, se juntem a esta causa - Queremos de novo o Parque de PedrasSalgadas

Anónimo disse...

Pedras Frustradas

O Céu chorava cinza copiosamente
Tarde desencontros eufórica solidão
Mulher Parque anoiteciam escuridão
Sentimento sofrido pecado cadente

Mirantes do hotel doem de abandono
Olhares pousados casino que já Foi
Chove uma dor dessas só arde e doí
Galhos caídos ninguém desvia sono

Os passos escreviam o doce caminho
Do coração cheio de Amor só e vazio
Em folhas estendidas triste cansaço

Teimosia da esperança parco regaço
Evasão do imaginário e do sombrio
Tempestade emocional tormento Brio

Isabel Seixas